quarta-feira, 16 de março de 2011

Noite líquida

tumblr_ldzo0mEZoY1qc16bto1_500A noite líquida 
Escorre vagarosamente
Como cera derretida nas brechas da luz.
Calor e grandeza,
Como a materialidade dos discursos
Em sua existência pensada.
No encontro da noite e da mente,
O que não é demência,
É essência.
 
por Sérgio Araújo

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O homem louco

437085062_3f77755dc5Quando as folhas dançam no ar

O cheiro do mar

Raposa dos campos e o homem louco

Livre para o futuro

Espírito de asas ligeiras

O homem intrépido

O homem que sou chora diante da beleza

Que nunca morre

E o espírito do homem louco é livre

Dançando sobre a grama molhada

Voa para o nada.

 

por Sérgio Araújo

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O diário do dia de ontem

4960897359_c46ec5e5e6Sendo ainda criança, não sabia das regras do mundo. Nada sabia daquilo que obrigava os homens a trabalhar por dinheiro, as mulheres a servir e as crianças a desobedecer os ditames; fardos, que os adultos carregavam com grande sacrifício e compartilhavam entre si, arrastando suas hipocrisias sutis.

Posto que não saber é um tipo de sabedoria que foge aos verbos das  ruas, dos bancos das igrejas e das salas sombrias, a criança olhava para o mundo de baixo para cima e mastigava o por quê do dia ao tempo em que afastava-se lentamente dos seus próprios pés.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Um som passou por aqui

 tumblr_l4wzt8a5pJ1qzkikro1_400Um som passou por aqui. Deixou suas marcas no silêncio entre o sol e o lá. Silêncio cheio de falas na sala imensa em cujo eco abundam coisas de sentir.

Digo de eras entrelaçadas e fantasias inteiras curtidas no limiar da claridade da manhã. Soltas, as notas se vão, prolongando os lumes como se fossem suas caldas, réstias de sol no chão de pedra.

Porque não te vejo, entristecido, vago a sonhar com cores e sons que não se importam com unidades. Não é para mim essa música. É de todos na universalidade em que também me reconheço.

Canto e desencanto, espaço, delírio….

Em que estrada insana intenta o som fazer-se tão simples e belo?

 

por Sérgio Araújo

sábado, 8 de janeiro de 2011

Sobreface

Snapshot - 27Sobreface.

Faces de todas as coisas

Do visível delével,

Poeira formatável pela preferência.

Nada real com quer tua sensatez.

Tudo real com se fosse a primeira vez.

A sede, o gole e a sede do gole.

Dasein!

 

por Sérgio Araújo

domingo, 26 de dezembro de 2010

Não é nenhuma luz do sol

não é nenhuma luz do solAgora olhava a vastidão da caatinga e seus galhos, como braços retorcidos, sapecados, arranhando a paisagem.

O circulo se fechou unindo à ponta do Saara. E toda a tempestade é um canto varrendo as nuvens supostamente postas no céu de gifs replicantes.

As marcas da praça ampla a me olhar, sozinho, posto no vão aonde sopram os violinos cavando valas na superfície do vento.

Não é nenhuma luz do sol aquele reflexo que te dei numa tarde, cansado de ver os barcos quando estava no cais das caravanas.

Aquele som antigo,

Mãe Terra,

Aquarela.

Blue de cítara,

Atabaque

Baque, bac, back, baq.

E não há outro mundo para me espelhar. Apenas o mar, camaleão engalanado para a eternidade.

 

por Sérgio Araújo

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Na plenitude do dia

Fábrica dos Espelhos (Factory of Mirrors) by Artur Manuel Rodrigues Cruzeiro-Seixas.Como posso na plenitude do dia

Catar versos tão maduros?

Alguns agarraram-se a mim

Como a um pai zeloso.

Outros, colhi como frutas maduras.

Há os que correm, aflitos, olhando a retaguarda.

Os que parecem ter sempre estado aqui ao meu alcance.

Uns simplesmente explodem sobro os outros

Espalhando suas partes,

Imagens que se agregam com facilidade

Na extensão dos signos

Já plenos de si.

 

por Sérgio Araújo

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O céu sobre o campo

4033270031_8dc11f86e4O campo coberto de céu nunca morre

Se a grama seca

A raiz toca as nuvens no seu anverso.

O céu espelha a grama sobre o campo

E molha o solo do universo.

E eu quero conversar

Olhando nos meus olhos

Que refletem as nuvens sobre o campo.

Já não posso chorar

Para não molhar o campo sob o céu.

Basta que eu seja um homem

E possa olhar o campo e o céu

No limite do horizonte

Tênue, traço constante.

 

por Sérgio Araújo

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Soprando versos no meu ouvido

tumblr_lbbn4rIg5K1qeubbbo1_500Quero falar sobre aquela emoção antiga

Perdida na floresta dos sentidos.

Vez em quando,

Quando levemente entristeço,

A vejo surgir assim tão magra e leve

Que parece definhar longe da minha atenção.

Mas ela está sempre lá,

Entre sombras finas, chuvas e silêncios.

Vez em quando,

Quando levemente entristeço,

Sinto-a perto de mim,

Soprando versos no meu ouvido.

 

por Sérgio Araújo

sábado, 13 de novembro de 2010

Café Aragipe

rua sta rosa

Para Aglacy Mary

Também apago sombras!

Sinto-as…

Sombras são quase coisas,

Outras coisas.

Talvez as próprias coisas!

Quem sabe atalaias

Ao sol ardente

De uma tarde de verão.

Sombras no oceano,

No mesmo plano da avenida.

Rua da frente!

E não me  esqueço da Santa Rosa.

Café Aragipe,

Cheiro de manhã

Impregnado de humanidade.

 

por Sérgio Araújo

domingo, 7 de novembro de 2010

Céu de bem cedo

2006786941_a43bc9de87_mMeus pensamentos sonoros como versos matutinos

Rasgam o papel com letras agudas

Semeando palavras na branquidão.

Rimas voláteis como sax on song

Findam completas feito chuva na tarde.

Com um sorriso discreto,

Te vejo na gota de tinta,

No fim da linha em espiral

Que traço com meu bico de pena.

Serena,

Passas bebendo nuvens alvinhas

Num céu de bem cedo.

Daqui, do lado da sombra,

Corro os dedos distraído

E risco o teu nome em silêncio

No vapor fugaz da vidraça.

 

por Sérgio Araújo

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Conta aberta

BlancoyNegro.25Qual a solução?

Se no vão do meu olhar incerto,

Da minha conta aberta na atmosfera

Sou um pássaro na chuva

Nesta praça insana.

Um ponto

Num canto do mundo.

 

por Sérgio Araújo

domingo, 24 de outubro de 2010

Solilóquio solúvel

1224703122vvJT8sR Tarde infinita

Besouros circulam sobre a cabeceira da cama

Indiferentes

Como se andassem sobre as notas desta música fria

Solidão de tarde de domingo

Incertezas

E minha voz

Fria

Vazia

Solo de saxofone

No silêncio solúvel

Na palidez do azul entre os galhos.

 

por Sérgio Araújo

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O Requerente

palavrasSentado num sofá improvisado com um banco de kombi, observa atento o fluxo intenso dos requerentes.
À sua direita, numa saleta abafada e barulhenta, um velho balcão de madeira derrotado pelos cupins e pelos muitos anos de serviço público servia de apoio para os que não conseguiram assento para a longa espera.
O piso lixado pelos pés de muitas ruas, pobres pés doídos e cansados, apertados desde o alvorecer, corridos nos trilhos do subúrbio, molhados na subida do barco, pisados no ônibus e, quase sempre, machucados nas irregularidades dos calçamentos.
Os requerentes são seres angustiados. Trazem em suas mãos suadas, velhos papéis, retratos de meia dúzia, envelopes pardos, filhos menores, bebês e gordura de pastel.
Calados, tímidos, barulhentos, sedentos e suados seguem embrulhados em suas roupas de requerentes compradas no fim do ano passado, e inauguradas num acontecimento que terminou com bolo de chocolate para curar a ressaca.
Do seu banco, ele observava. Não ousava sair e perder o posto conquistado por hora de chegada, por antiguidade. Como requerente experiente jazia incólume na sua longa espera.
Ele sabia como o sistema funcionava: tinha que se diferenciar dos demais requerentes. Não bastava, é claro, ficar quieto, imóvel. Era preciso conquistar o olhar do servidor. E isso não era uma tarefa fácil.
Era como uma disputa de gato e rato: Requerente e servidor. Alternando a ação ofensiva, travavam um duelo silencioso disputando o poder de ser quem é na multidão de anônimos do dia-a-dia.
Porém, naquele dia, ele perdeu. Sentindo-se aviltado pela astúcia do requerente, Almerindo Fiapos, o Notário do turno, encerrou o expediente dobrando com desprezo a plaqueta sobre o balcão de atendimento.
ENCERRADO!

por Sérgio Araújo

domingo, 10 de outubro de 2010

O espírito do tempo

1240122927uqpDxcyO espírito do tempo não é um fantasma, uma assombração.

Não senhor!

Ele é um vazio cheio de recordações.

Ele impregna essas paredes com suas marcas,

Arrasta suas correntes de datas,

Farfalha nas janelas os seus galhos de folhas secas.

Sussurrando como o vento,

Ele aperta o nosso peito nos tirando o ar.

Nos diz dos feitos e desfeitos,

Do paradoxo de ser o que não se é

Não sendo o que se foi, sempre.

Ele charla, nos convida a dançar

E como um louco,

Perdido em sua própria dança

Outra vez nos faz criança.

 

por Sérgio Araújo

Foto: By Raaden

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Palavras e coisas

800px-Dead_Vlei_5 Não há emoção apenas naquilo que dizem conter emoção.

Naquilo que dizem traduzir as muitas razões dos séculos,

Nas doses de gosto conhecido,

No que já vem sorvido.

Me emocionam as palavras que não contêm emoção pela

significação,

As palavras brutas,

Insólitas.

Porque antes de serem palavras

Foram sentimento.

Mesmo a mais grotesca e áspera,

Foi um dia emoção

Até que, criando novas flexões  e novos sons,

Irrompesse intrépida pela boca aliviada.

 

por Sérgio Araújo

sábado, 25 de setembro de 2010

Ponta das Margaridas

1221103722q6NV8r1Levantou às 3, às 4 partiu na velha canoa costeando o lombo do leste, devagarinho, na flor da maré grande.
Olhando de esguelha pra não esbarrar em pesqueiro coberto, Biô cantarolava baixinho e remava crispando a água nos dois lados pra fazer rumo certeiro no cardume de tainha.
Rede pronta na proa, branquinha na garrafa, já distinguia o vulto cabeludo da Ilha do Medo quando o primeiro pingo bateu como um cascudo na aba do boné.
Olhou pra cima, pro breu do céu e recebeu outro pingo. Dessa vez acertou-lhe o olho direito lavando as remelas e clareando a visão pra aurora que avermelhava acima da proa.
Biô, tirando força dos braços magros e ressequidos de muitos verões, fez a “Margarida” deslizar veloz contornado o lombo e ganhando mar aberto.
De repente, o que era claro ficou escuro, o céu enturvou e o vento soprou água do mar nas narinas de Biô. Margarida rodopiava num samba de roda encachaçado quando um peixe voador raspou-lhe a orelha e um fio de sangue correu, cor de rosa, sobre a camisa encharcada.
Lá se foi o remo, a branquinha vazou, a rede escorregando pela beirada, parecia fazer seu trabalho de todos os dias, espalhando-se sobre a água com suas bóias coloridas.
Margarida bebeu água, Biô também. O vento gelado chicoteava seu corpo, a canoa empinava e mergulhava na vaga: foi uma, veio a segunda, na terceira vez cuspiu Biô, mergulhou e não mais voltou, partida ao meio por um raio certeiro.
às 12, na praia deserta: restos de rede, tralhas de pesca, pedaços de pau, uma flor, um vidro de perfume e um rastro de peixe grande que se estendia da beira da água até o corpo de Biô.
Quem viu, contou do sorriso nos lábios do pescador e do cheiro forte de alfazema que se espalhou pela praia com a brisa leve da Bonança.

por Sérgio Araújo

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Scriptorium

scripAlém das escadas, soluções inimagináveis para todos os mistérios sob o teto de carvão. Abóbada longínqua desde o piso ordinário, ensebado; caprichosamente sujo.

A porta de saída, na verdade, fora a próxima cena; conta da Japamala retornada na infinitude da forma.

Não é o vazio das ruas, nem suas gentes toscas que agora vejo. De perto, grotescos sulcos impregnam a superfície da tela e nela está marcada a entrada do scriptorium.

Olusco não é o nome, mas ocluso. Este é o termo que em magenta se insinua no traçado pueril das letras pintadas na tábula  inclinada pelo peso do pincel.

Agora entendo a sinuosidade das escadas, a incerteza dos sentidos na experimentação do tato, a fuga para além das portas, o reconhecimento dos rostos em cubos.

Ocluso! – Sussurrou novamente o zelador já no vazio distante – enquanto repito incessantemente, como um recado que devo transmitir e não posso esquecer: scriptorium ocluso!

Caminho não sei se para dentro ou para fora, não vejo portas. Agora é o vazio e o frio das paredes que roçam meu corpo, regelando os ossos.

Corro como um alucinado e no desvario tudo se mistura: o mosaico do piso, as portas abertas, as vozes misturadas ao assobio do vento, a cabeça da moça da loja e seu cérebro minúsculo, a muralha, o tempo.

Com um rangido, uma porta abre-se diante de mim. Sob uma viga sustentada por duas colunas romanas: a porta do scriptorium.

 

por Sérgio Araújo

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Abrigo

≈_Half_MoonMergulhou na escuridão como quem adentra um abrigo na tempestade.

 

por Sérgio Araújo

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Silêncios de entreletras

tumblr_l6zuyuu9jQ1qziwcjo1_500 - Está tudo bem com você?

- Como vai passando os seus dias?

Sabe, eu caminho nas ruas e olho para trás, de vez em quando, só para me certificar de que não deixei rastros.

Não, não me leve a mal. Não procuro me esconder nas multidões. Só não consigo deixar de ser coletivo.

Sabe, eu sou muitos e esta multidão, de certa forma, me protege.

Ontem, um sujeito me achou. Ele me viu quando eu cruzava a calçada e um raio de luz bem fino iluminou o botão da minha camisa.

Ele limpou os olhos, franziu as sobrancelhas e encarou o vazio que deixei no espaço da rua.

Às vezes ecoo como asa de libélula e o som se propaga como se fosse numa ruina grega.

Não importa. Vou meter meus poemas nos bolsos e fazê-los cair um a um; palavra por palavra; todos os silêncios de entreletras que deslizarão sobre as pedras para murcharem na areia fina.

Será minha pista. Minhas pegadas para serem seguidas.

De qualquer forma, está tudo bem.

por Sérgio Araújo