A noite líquida Escorre vagarosamente
Como cera derretida nas brechas da luz.
Calor e grandeza,
Como a materialidade dos discursos
Em sua existência pensada.
No encontro da noite e da mente,
O que não é demência,
É essência.
por Sérgio Araújo
A noite líquida
Quando as folhas dançam no ar
O cheiro do mar
Raposa dos campos e o homem louco
Livre para o futuro
Espírito de asas ligeiras
O homem intrépido
O homem que sou chora diante da beleza
Que nunca morre
E o espírito do homem louco é livre
Dançando sobre a grama molhada
Voa para o nada.
por Sérgio Araújo
Sendo ainda criança, não sabia das regras do mundo. Nada sabia daquilo que obrigava os homens a trabalhar por dinheiro, as mulheres a servir e as crianças a desobedecer os ditames; fardos, que os adultos carregavam com grande sacrifício e compartilhavam entre si, arrastando suas hipocrisias sutis.
Posto que não saber é um tipo de sabedoria que foge aos verbos das ruas, dos bancos das igrejas e das salas sombrias, a criança olhava para o mundo de baixo para cima e mastigava o por quê do dia ao tempo em que afastava-se lentamente dos seus próprios pés.
Um som passou por aqui. Deixou suas marcas no silêncio entre o sol e o lá. Silêncio cheio de falas na sala imensa em cujo eco abundam coisas de sentir.
Digo de eras entrelaçadas e fantasias inteiras curtidas no limiar da claridade da manhã. Soltas, as notas se vão, prolongando os lumes como se fossem suas caldas, réstias de sol no chão de pedra.
Porque não te vejo, entristecido, vago a sonhar com cores e sons que não se importam com unidades. Não é para mim essa música. É de todos na universalidade em que também me reconheço.
Canto e desencanto, espaço, delírio….
Em que estrada insana intenta o som fazer-se tão simples e belo?
por Sérgio Araújo
Sobreface.
Faces de todas as coisas
Do visível delével,
Poeira formatável pela preferência.
Nada real com quer tua sensatez.
Tudo real com se fosse a primeira vez.
A sede, o gole e a sede do gole.
Dasein!
por Sérgio Araújo
Agora olhava a vastidão da caatinga e seus galhos, como braços retorcidos, sapecados, arranhando a paisagem.
O circulo se fechou unindo à ponta do Saara. E toda a tempestade é um canto varrendo as nuvens supostamente postas no céu de gifs replicantes.
As marcas da praça ampla a me olhar, sozinho, posto no vão aonde sopram os violinos cavando valas na superfície do vento.
Não é nenhuma luz do sol aquele reflexo que te dei numa tarde, cansado de ver os barcos quando estava no cais das caravanas.
Aquele som antigo,
Mãe Terra,
Aquarela.
Blue de cítara,
Atabaque
Baque, bac, back, baq.
E não há outro mundo para me espelhar. Apenas o mar, camaleão engalanado para a eternidade.
por Sérgio Araújo
Como posso na plenitude do dia
Catar versos tão maduros?
Alguns agarraram-se a mim
Como a um pai zeloso.
Outros, colhi como frutas maduras.
Há os que correm, aflitos, olhando a retaguarda.
Os que parecem ter sempre estado aqui ao meu alcance.
Uns simplesmente explodem sobro os outros
Espalhando suas partes,
Imagens que se agregam com facilidade
Na extensão dos signos
Já plenos de si.
por Sérgio Araújo
O campo coberto de céu nunca morre
Se a grama seca
A raiz toca as nuvens no seu anverso.
O céu espelha a grama sobre o campo
E molha o solo do universo.
E eu quero conversar
Olhando nos meus olhos
Que refletem as nuvens sobre o campo.
Já não posso chorar
Para não molhar o campo sob o céu.
Basta que eu seja um homem
E possa olhar o campo e o céu
No limite do horizonte
Tênue, traço constante.
por Sérgio Araújo
Quero falar sobre aquela emoção antiga
Perdida na floresta dos sentidos.
Vez em quando,
Quando levemente entristeço,
A vejo surgir assim tão magra e leve
Que parece definhar longe da minha atenção.
Mas ela está sempre lá,
Entre sombras finas, chuvas e silêncios.
Vez em quando,
Quando levemente entristeço,
Sinto-a perto de mim,
Soprando versos no meu ouvido.
por Sérgio Araújo
Para Aglacy Mary
Também apago sombras!
Sinto-as…
Sombras são quase coisas,
Outras coisas.
Talvez as próprias coisas!
Quem sabe atalaias
Ao sol ardente
De uma tarde de verão.
Sombras no oceano,
No mesmo plano da avenida.
Rua da frente!
E não me esqueço da Santa Rosa.
Café Aragipe,
Cheiro de manhã
Impregnado de humanidade.
por Sérgio Araújo
Meus pensamentos sonoros como versos matutinos
Rasgam o papel com letras agudas
Semeando palavras na branquidão.
Rimas voláteis como sax on song
Findam completas feito chuva na tarde.
Com um sorriso discreto,
Te vejo na gota de tinta,
No fim da linha em espiral
Que traço com meu bico de pena.
Serena,
Passas bebendo nuvens alvinhas
Num céu de bem cedo.
Daqui, do lado da sombra,
Corro os dedos distraído
E risco o teu nome em silêncio
No vapor fugaz da vidraça.
por Sérgio Araújo
Se no vão do meu olhar incerto,
Da minha conta aberta na atmosfera
Sou um pássaro na chuva
Nesta praça insana.
Um ponto
Num canto do mundo.
por Sérgio Araújo
Tarde infinita
Besouros circulam sobre a cabeceira da cama
Indiferentes
Como se andassem sobre as notas desta música fria
Solidão de tarde de domingo
Incertezas
E minha voz
Fria
Vazia
Solo de saxofone
No silêncio solúvel
Na palidez do azul entre os galhos.
por Sérgio Araújo
Sentado num sofá improvisado com um banco de kombi, observa atento o fluxo intenso dos requerentes.
O espírito do tempo não é um fantasma, uma assombração.
Não senhor!
Ele é um vazio cheio de recordações.
Ele impregna essas paredes com suas marcas,
Arrasta suas correntes de datas,
Farfalha nas janelas os seus galhos de folhas secas.
Sussurrando como o vento,
Ele aperta o nosso peito nos tirando o ar.
Nos diz dos feitos e desfeitos,
Do paradoxo de ser o que não se é
Não sendo o que se foi, sempre.
Ele charla, nos convida a dançar
E como um louco,
Perdido em sua própria dança
Outra vez nos faz criança.
por Sérgio Araújo
Foto: By Raaden
Não há emoção apenas naquilo que dizem conter emoção.
Naquilo que dizem traduzir as muitas razões dos séculos,
Nas doses de gosto conhecido,
No que já vem sorvido.
Me emocionam as palavras que não contêm emoção pela
significação,
As palavras brutas,
Insólitas.
Porque antes de serem palavras
Foram sentimento.
Mesmo a mais grotesca e áspera,
Foi um dia emoção
Até que, criando novas flexões e novos sons,
Irrompesse intrépida pela boca aliviada.
por Sérgio Araújo
Além das escadas, soluções inimagináveis para todos os mistérios sob o teto de carvão. Abóbada longínqua desde o piso ordinário, ensebado; caprichosamente sujo.
A porta de saída, na verdade, fora a próxima cena; conta da Japamala retornada na infinitude da forma.
Não é o vazio das ruas, nem suas gentes toscas que agora vejo. De perto, grotescos sulcos impregnam a superfície da tela e nela está marcada a entrada do scriptorium.
Olusco não é o nome, mas ocluso. Este é o termo que em magenta se insinua no traçado pueril das letras pintadas na tábula inclinada pelo peso do pincel.
Agora entendo a sinuosidade das escadas, a incerteza dos sentidos na experimentação do tato, a fuga para além das portas, o reconhecimento dos rostos em cubos.
Ocluso! – Sussurrou novamente o zelador já no vazio distante – enquanto repito incessantemente, como um recado que devo transmitir e não posso esquecer: scriptorium ocluso!
Caminho não sei se para dentro ou para fora, não vejo portas. Agora é o vazio e o frio das paredes que roçam meu corpo, regelando os ossos.
Corro como um alucinado e no desvario tudo se mistura: o mosaico do piso, as portas abertas, as vozes misturadas ao assobio do vento, a cabeça da moça da loja e seu cérebro minúsculo, a muralha, o tempo.
Com um rangido, uma porta abre-se diante de mim. Sob uma viga sustentada por duas colunas romanas: a porta do scriptorium.
por Sérgio Araújo
- Como vai passando os seus dias?
Sabe, eu caminho nas ruas e olho para trás, de vez em quando, só para me certificar de que não deixei rastros.
Não, não me leve a mal. Não procuro me esconder nas multidões. Só não consigo deixar de ser coletivo.
Sabe, eu sou muitos e esta multidão, de certa forma, me protege.
Ontem, um sujeito me achou. Ele me viu quando eu cruzava a calçada e um raio de luz bem fino iluminou o botão da minha camisa.
Ele limpou os olhos, franziu as sobrancelhas e encarou o vazio que deixei no espaço da rua.
Às vezes ecoo como asa de libélula e o som se propaga como se fosse numa ruina grega.
Não importa. Vou meter meus poemas nos bolsos e fazê-los cair um a um; palavra por palavra; todos os silêncios de entreletras que deslizarão sobre as pedras para murcharem na areia fina.
Será minha pista. Minhas pegadas para serem seguidas.
De qualquer forma, está tudo bem.
por Sérgio Araújo