sexta-feira, 17 de julho de 2009

Cavaleiro torto

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Um cavaleiro torto

De silhueta neogótica

Percorre o caminho, sorrateiro

Na lama putrefatalenankin

Filho da arca pulga tricha

Esbilte pilotron sanguessuga

Mimética solução humanóide

Lesa-forma vil vivente

Um cavaleiro de longa esfera

Filho da arca sila troncha

Caminha indeciso

Na prima lama dicotômica

Cata tenso, na orla empolada

Finos fios de palavraspontes

Para dizer fundante

O que nunca fora antes.

Um cavaleiro torto

Pouco

Intrépido arcanjo rococó

Arremata a vida num poema

Como laço ou como nó.

 

por Sérgio Araújo

 

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Tempo curto

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O tempo é curto

O tempo é mudo

O tempo não cabe no meu mundo.

Eu curto o tempo

Mudo num segundo

Meu mundo não cabe no tempo.

 

por Sérgio Araújo

Foto:out of time - flickr - alicepopkorn

domingo, 12 de julho de 2009

Azul

margarita azul frontal. flickr. alfaneque
Capítulo XXII
O anúncio fixado na porta de entrada da casa de V escrito em fonte Old English informava, solenemente, a chegada do casal, em lua de mel há uma semana.
Pela porta semiaberta penetrava um réstia de luz do sol que imprimia, em tons dourados, um triângulo retângulo no chão de madeira polida.
Sentada, bordando um pano qualquer para matar o tempo, V suspirava enquanto pensava na recepção: flores do campo, cheiro de jasmin, música alegre, bebida farta e borbulhante, salgados e doces, ah! muitos doces.
Iluminado, o jarro de porcelana verde refletia a luz do sol em raios frios e animados projetando na parede uma infinidade de pequenas partículas multicoloridas.
V não era bonita como a noiva. V tinha sonhos românticos como toda jovem de sua idade. Mas V não era bonita como a noiva. Era inteligente! Na verdade, era muito mais inteligente que sua irmã. Não fosse pelo "defeito", como costumavam dizer referindo-se ao fato dela não poder andar, coisa de nascença, V certamente seria a preferida do, agora, marido de sua irmã.
Em sua insignificância aparente, ela era extremamente produtiva. Além dos cuidados da casa, ela escrevia. Amante nenhum nesse mundo teria escrito cartas e poemas tão belos quanto os que V moldava com lágrimas, na matéria indiferente do papel, em suas eternas noites de insônia.
V é tão jovem!
Mesmo que os verões esbanjassem claridade e velocidade às vidas daquela casa, V era inverno! Não que deixasse a alguém perceber a sua tristeza, ela simplesmente congelava em sua solidão enquanto ria e conversava sobre os dias e as coisas. No seu exílio, criava. Escrevia sobre vales verdes e serenos, sobre montanhas cujos picos alcançavam as nuvens e as águias faziam ecoar seus gritos pelos ares, descrevia terras imaginárias, lagos tão extensos, oceanos tão profundos, pessoas tão belas e boas quanto ela.
V é tão bela!
Bordando, ia criando. Criando uma festa de casamento, um amor delicado, uma figura que escapava do seu pensamento toda vez que tentava vislumbrar um rosto, uma mão, cabelos ao vento, sol no rosto, sorriso. Via sem detalhes, como quem adivinha. Mas, mesmo assim, ela queria poder dizer que amava, que sonhava e vivia.
Não importa se eram tantos os presentes que enchiam o seu quarto de uma graça comprada aqui e ali, sem identidade, apenas coisas brilhantes, felpudas e sonoras. V queria viver para além daquele quarto e sentir-se plena nas coisas do mundo.
V é frágil!
Diluindo a triângulo e espalhando luz por todos os cantos da sala, entra o casal em plenos sorrisos e conversas. Acorrem todos, o som se espalha como a água sobre a toalha da mesa, reluzem os metais, gestos e frases, palavras e respingos
Distante daquilo tudo, lenta e silenciosamente, a mão escorrega sobre o peito e repousa suavemente sobre o pano. Fechados os olhos, V agora jaz, pequena flor sobre uma rocha bruta.
Fecho o livro e vou dormir, sereno, como uma melodia de Bossa Nova.
 
por Sérgio Araújo
foto: flickr - alfaneque

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Esquina

Van Gogh

Agora que estamos sós

Juntos, mas distantes

Como numa esquina

Sem um ponto de encontro

Vejo passar o tempo

Olho pro céu

Gotas de memórias

Molham meu rosto

E não há nada que eu possa fazer

Nem ontem

Nem hoje

Eu quero estar com você

Naquela praça

Depois da esquina

Eu não sei...

O tempo diz não

E mesmo que o desejo

Seja a bola da vez

Eu não te enconto

Depois da chuva

Com o sol no rosto

Naquela esquina.

 

por Sérgio Araújo

imagem: Van Gogh-Boulevard de Clichy

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Olhos

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Soluçou rompendo o silêncio da noite. Não há luz, a escuridão deixa suas marcas no espaço onde os olhos das vagas velas vasculham em vão o vão impuro, repleto de sonhos que ainda resistem às mãos que penetram os cabelos finos, como os córregos nas florestas de Antária.

por Sérgio Araújo

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Torturado

Com o corpo parcialmente escondido atrás do poste de madeira, espiava a rua à sua frente, nem se deu conta de que os seus algozes, nesse instante, já faziam o cerco e se aproximavam perigosamente da sua posição.

Parado! Pro chão, pro chão!

A sirene estridente da viatura preta percutiu em sua cabeça.

Capuz, pontas dos pés arrastadas nas poças d'água, porta aberta, corpo jogado no banco traseiro, motor, fumaça no escapamento, pneus cantando...

Num baque, espirrando água para todos os lados. Ei-lo sentado na cadeira de ferro, daquelas antigas que eram doadas pelas companhias de bebidas para servir às barracas de festa de largo, enferrujada e meio torta em uma das pernas.

Uma cela de 9m². Num canto um aparelho de televisão exibia Xuxa Só Para Baixinhos. A cada par de horas, em alto volume, ressoava um pagode romântico daqueles cuja banda tem mais de 12 componentes.

A situação era tão absurda que tentou suicidar-se implorando para assistir um Globo Repórter inédito sobre dieta saudável, mas seus carrascos tinham outros planos.

Na semana seguinte, desfaleceu após sessões diárias de propaganda de loja de eletro-doméstico, materiais de construção e supermercados.

Enlouquecido tentava engolir o acarajé de caixinha no intervalo entre duas doses de vodka fabricada no interior de Sergipe, numa tentativa desesperada de pôr fim àquele sofrimento terrível.

O barulho do pino de ferro arrastando no chão de pedra, a luz que escapa para dentro da cela vai revelando aos poucos, num canto, um corpo que mais parecia uma mancha, uma bolha pastosa e esverdeada.

Ao lado,  escorregando do que parecia ser o bolso de uma calça de tergal, engosmado, o cartão de crédito de uma butique de sacoleira, uma foto dele com pose de Rambo na guarita do Tiro de Guerra e uma mecha de cabelo de Margarida, a periguete que conheceu no auditório do programa do Bocão.

 

por Sérgio Araújo

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Upload

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Sentado em frente ao monitor com os olhos fixos no centro da tela esperando algo ou alguém, absorto. Só, em sua inutilidade semanal, não percebeu a vigilância fria e panótica da Webcam que penetrava em seu corpo como um raio-X e, sondando os seus mais remotos pensamentos, impingia-lhe uma alienada exposição.

- Alô! - rompendo o silêncio - uma voz aveludada, um sussurro de fêmea etérea.

Como quem desperta de um sono profundo, foi, aos poucos, se acostumando com o ambiente nebular do display até sentir o impacto das mãos com o teclado, abaixo.

Digitou alguma coisa, sem nexo, meio parecido com o vernacula utopiensium e virou-se em plano médio americano procurando a webcam que, agora, deslizava tranquilamente num ângulo de 180º.

- Alô - repetiu a voz etérea. - Alô senhor! Favor digitar seu user name e password enquanto confirmamos o contato visual. Lembramos: esta fase do processo é muito importante para preservar o link enquanto fazemos à transliteração dos dados. Aguarde, por favor.

Atordoado, ele tentava corresponder às exigências da máquina enquanto se maldizia por não ter lido os "Termos de Uso" e a "Política de Privacidade", agora era tarde, o dedo ágil digitara as últimas letras da senha resvalando num clic instintivo para enviar.

Enquanto aguardava novas instruções minimizou a janela do Player e pôs-se a observar atentamente o caos alfanumérico que enchia a tela e contornava um pequeno campo retangular, quase um banner oco, revelando o branco excessivo do cristal líquido.

- Agora, senhor, por favor digite uma frase qualquer para que possamos iniciar o download - carinhosamente pedia aquela voz serena que, de maneira alguma podia ser uma gravação dessas que existem aos montes nas telecomunicações.

- Mas que raios de frase eu devo escrever? - pensou! Estendeu os dedos sobre o teclado e permaneceu nessa posição até que, como um relâmpago, cortando os seus pensamentos desordenados, surgiu: " o que você quer de mim?" Então, com os dedos pesados de ansiedade, digitou.

Voltou os olhos para o monitor que parecia mais Gaussian Blur do que estava antes.

- Senhor?  Agora permaneça imóvel para possibilitar uma melhor performance do scanner.

Pela primeira vez, enquanto permanecia congelado numa pose de 3x4, irritou-se com aquela situação. Afinal, o que queriam com ele? Não bastavam os updates daquela semana? Acaso não teria solucionado os problemas de instalação do novo pack? Não teria reportado aquele bug? Nada parecia estar "batendo".

- Senhor? The key, the end,  the answer!

Foi então que entendeu tudo aquilo. Claro, só podia ser o sinal que esperava. Imediatamente iniciou o upload a partir das memórias mais remotas da sua vida que agora eram transmitidas através de um raio caleidoscópico para a ávida lente da webcam que se aproximava num zoom ótico 

 

por Sérgio Araújo

sábado, 27 de junho de 2009

Silêncio

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O tempo escoou

E eu estou longe

Não te observo mais

Andando descontraida pela calçada

Ou deitada no chão

Com um olhar perdido

Imaginando utopias

Silenciosa ilha.

 

O tempo passou

E eu estou sozinho

Pensando em você

Sonhando, deitado no chão

Observando

O quadro na parede

Minha utopia.

 

Pensei num tempo

Andando com você

No caminho do mar

Na trilha das pedras

Sem tempo

E sem espaço

Descalços no fim do dia.

 

por Sérgio Araújo

Foto:www.flickr.com/photos/sergemelki/

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Súbito

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Súbito
Surge assim
Como quem rouba
Um pedaço de dia
Num instante qualquer
Rasgando fantasias
sonorizando frases
Vociferando melodias
Para mostrar-se
Claro
Como um poema de Emily Dickinson
Atravessando séculos
Num Daguerreótipo country
Com pássaros
E gotas de chuva
A tilintar
Na cobertura espessa
da minha cabeça
Assim
Súbito
por Sérgio Araújo

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Vamos acordar!

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Tocou o chão com os pés descalços e retirou-os imediatamente, estava fria demais aquela manhã e ainda não era junho. Com muito esforço, sonolento, endireitou-se na cama e fixou os olhos no telhado baixo e escuro para ver se já havia amanhecido. Inclinou-se um pouco para frente e ligou o rádio de três faixas que ficava sobre uma mesa improvisada com cavaletes de construção.

- Vamos acordar! - dizia a vinheta do programa numa voz meio caipira, de quem diz porque diz, seguida por uma canção sertaneja das antigas, tipo Cascatinha e Inhana.

Cambaleou até o fogão de lenha, pegou o querosene numa prateleira, restos de palha de milho e varou o lusco-fusco com a chama do fósforo, num estalo.

Lá fora os primeiros sons da passarada anunciavam o dia. Um cheiro de fogueira acesa tomou conta do ambiente. Cheiro quente que logo se fundiria com o bafo de café barato e de pão dormido esquentado sobre a chapa de ferro.

- Vamos acordar! - repetia desafiando, o locutor.

Naquela manhã, despertara com a lembrança de um sonho ou talvez fosse uma impressão, um sobressalto capaz de deixá-lo pensativo e meio triste. Não era tristeza, mas nostalgia. Era uma lembrança sem se  lembrar, um perfume que persistia e não se dissolvia na água que agora banhava o seu rosto.

- Eu sou tão jovem! - Que lembranças pesam em minha mente? Que portas deixei de abrir? - Pensou enquanto sentava-se para engolir o café com pão.

Talvez seja ela. De quem não vejo o rosto. Vejo apenas os longos cabelos, a atmosfera alegre e onírica, uma cumplicidade, ternura.

- Quero voltar ou seguir? O que procuro está no passado ou no futuro? - pensou enxugando uma lágrima.

O rádio agora transmitia as notícias do dia.

Enquanto se olhava no espelho, tentava afastar aqueles sentimentos. O sol tomou conta da pequena sala vazia. Lá fora as pessoas passavam, alguns meninos fardados iam para a escola e o pára-brisa do automóvel no lado oposto da rua refletia o sol em seus olhos a ponto de não ver mais nada.

- Acordei! - disse com voz de locutor de rádio e bateu a porta.

 

por Sérgio Araújo

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Palavrascoisas

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                                          Nada

                           Um vazio

Onde outrora havia palavras

Palavras coisas

Cantantes

Sonoras

                                                    Como uma flauta doce

                                                              Saltitante

Palavras moventes

Movediças

Palavras lisas

Cordilheiras lexicais

Transmentais

Nada

Um vazio

              Vaso

                     Um Verbo

                                    Ao acaso!

sexta-feira, 12 de junho de 2009

O velho professor

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Destacava-se suspenso nos ares como uma janela para o passado. Liberto das agruras do tempo em sua carne, o rosto impecável em óleo sobre tela, parecia alegrar-se com o olhar mais atento do visitante curioso. A seus pés, uma pesada mesa de jacarandá reluzente de óleo de peroba, suportava velhos maços de papel, um porta lápis de metal prateado e uns poucos livros encadernados à moda antiga, com letras douradas em papel escurecido.
Teve o seu tempo. Fertilizou-o com suas letras envergadas pelo peso dos sentimentos e, acolá, esvoaçantes como um bando de serenatas ao luar. Construiu versos bêbados, outros encantados e sonoros como o dedilhar das cordas de um violão numa melodia vaga e veloz.
Ele sabia e repetia para quem o pudesse ouvir que o tempo é uma agulha arteira e tece com eficácia o texto dos dias. O velho professor sorri de soslaio e acena imperceptível para os olhos incautos dos visitantes. Naquela sala, o antigo divã roça seus fios arrepiados pelo desgaste, no pé-direito que se ergue solene em grossa camada de tinta azul entrecortada pelas estantes robustas que transpiram leitura, conhecimento em forma de nuvens de palavras, que ainda circulam alterosas pelo ambiente.
Teria sido em São Petersburgo, naquele passeio, do lado direito da Nevski, olhando as belas vitrines numa tarde de verão? Ah! Sim. Com certeza! A paixão foi fulminante e nada nem ninguém poderia tirar-lhe das mãos, aquele livro. Daquele encantamento, brotaram versos e prosas que encheram páginas e mais páginas do seu caderno de capa dura.
O velho professor que agora sustenta um sorriso matizado percorreu mundos e destrancou portas; modernizou-se nos bulevares de Paris. Em seus intensos devaneios, ele percorreu os meandros dos edifícios populosos de Praga para desvendar os mistérios das Moiras.
Se pensas que o pote estava cheio a derramar palavras como a banheira de Arquimedes, estás enganado, meu caro amigo. Aquele velho didata sabia que, como as areias do Saara, o conhecimento não tem fim. Deleitava-se a recordar blowup e aquela cena; não, não era uma cena de cinema, mas uma obra de arte; uma hélice enclausurada no enquadramento em preto e branco; luz e sombra.
Vez por outra, matava a sede revisitando séculos, passeando pelos jardins da Academia e sentando-se à mesa com Sofia, a bela dama, sempre espantada diante da simplicidade mas, carinhosa, em cujo colo suspirou olhando a noite estrelada, sem respostas.
Estava tudo ali, para quem quisesse ver: as histórias, as memórias e, mais que tudo, aquele metasorriso. É isso mesmo! Um metasorriso, um sorriso em si mesmo, encharcado de orgulho intelectual que a modéstia resguardava ante a imprecisão das opiniões alheias.
Desbravador implacável, exímio conhecedor dos caminhos nas estepes; saltador de montanhas e explorador de florestas tropicais. Por onde quer que andasse a imaginação dos poetas, lá estava ele, crítico mordaz, doce agnóstico a comover-se diante da beleza.
Suspenso estará sempre, nos ares, como as nuvens a apreciar contente a gente que ali aprende e que, como ele em sua infância, sonha um dia saber as respostas escondidas nas coisas e admira aquela figura suspensa, retratada em cores sóbrias. O velho professor, que não morre nunca, pois sobrevive não apenas na memória dos aprendizes, mas nos sonhos que brotam dos poetas.


por Sérgio Araújo

terça-feira, 9 de junho de 2009

Blue and Green

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A noite caiu pesada como chumbo sobre sua cabeça. No cais, à espera de Penélope, observava a dança das luzes da cidade refletidas na água. Pensava nas desilusões que a vida lhe trouxe e como aquela mulher havia penetrado fundo no seu coração. Como era serena aquela paixão, como se assemelhava a "Blue in Green" que outro dia tivera a felicidade de ouvir no Café Solano.

O cheiro da noite, o frio da madrugada e a espera. O último cigarro ainda queimava entre seus dedos e novamente aquela melodia.

Intrigava-lhe a maneira como ela entrou na sua vida. Um táxi em plena avenida frenética numa tarde de verão. Os prédios refletiam a intensa luz do sol e do lado oposto da rua: cabelos ao vento, sorriso pleno, decote generoso, mas comportado, quase sincero.

Não tomou o táxi, correu como um louco entre os carros para acompanhá-la. Numa disputa enlouquecida e unilateral com os transeuntes que caminhavam à sua frente, apostava com um depois do outro, pontos de chagada determinados pela proximidade com ela. Era uma maneira divertida de vencer terreno e se aproximar do alvo.

Podia vê-la chegando, podia sentir o seu perfume mesmo embaralhado nos diversos cheiros da rua naquela tarde. Enquanto se aproximava, cada vez mais rápido, pensava se devia falar-lhe, contar da sua paixão imediata, das loucuras que seria capaz de fazer para lhe agradar, das noites incontáveis de amor e vinho.

Penélope caminhava como quem avança para os braços do primeiro amor. Dir-se-ia que flutuava sobre sua felicidade. Não pisava as pedras portuguesas da calçada e ele estava ali, do seu lado, calado, olhando de vez em quando para merecer um sorriso que não se apagasse quando ela, por fim, se voltasse para ele.

O néon meio apagado e avermelhado do bar se avolumava através da chuva fina e Penélope não chegava. O som estridente da rotina policial podia ser ouvido misturando-se ao trompete de surdina que vagava sonolento na bruma do cais.

- Senhor M? - perguntou-lhe o homem de chapéu à sua frente.

Não respondeu. Atirou o cigarro na poça à sua frente e acenou indicando que o seguiria. Fez todo o trajeto em silêncio: o carro veloz deslizando no asfalto molhado, o prédio branco, a sala de espera, o corpo.

Um vulto vagou perdido, quase invisível diante das luzes das vitrines vazias até perder-se na escuridão. No bar da esquina que acabara de dobrar tocava Blue in Green, onde muitas Penélopes iluminavam o ambiente como notas musicais na noite fria.

 

por Sérgio Araújo

domingo, 7 de junho de 2009

36º

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Um papel

Um recado

Um recibo rasgado

Quinze mil cruzeiros

Em outubro de 84

Um cigarro

Um cinzeiro

Populares de Cuba

(Fumar daña su salud)

Rio de Janeiro

Eu não fui pra Aruba!

Li Artaud e Baudelaire

Chutei urna no palco

Meu poema silábico

Você lê se quiser

Sua voz embargada

Na hora marcada

Você diz o que quer

Dança e protesta

Manifesta!

Lê aquela brochura

Ainda há Ditadura

Nós queremos diretas!

Mas ficou no papel

Agora rasgado

Um recibo solitário

De um sonho sonhado

Registrado

No CPF e RG

Cadê Você?

 por Sérgio Araújo

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Quem sabe um dia

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Quem sabe um dia

Eu te mostro a lua

Com sua luz metálica

Numa noite fria.

Quem sabe amanhã

A estrada é deserta

A noite é prata

A relva é vasta

E tua voz é leve

Como uma navalha

Cortando o silêncio.

Quem sabe não esqueço

Teu endereço

E a luz da lua

Nos teus cabelos.

Talvez!

Num desespero de solidão

Na escuridão

Eu possa te ver

Como na primeira vez

Naquela noite

Na imensidão prateada da lua.

 por Sérgio Araújo

segunda-feira, 1 de junho de 2009

A casa de Manuela

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Olhando do alto, ela ocupava um retângulo estreito entre duas casas maiores. Telhado de duas águas frente e fundo com muitos anos de sol e chuva, emaranhado de barandões, sacos plásticos e um kichute que só Deus sabe com foi parar ali.
A rua se alongava numa reta após uma curva leve ,cujo côncavo pertencia à vista da janela muito baixa e estreita que, quando aberta, emoldurava uma parede azul e,  no canto, à direita, a madeira torneada do braço do sofá.
Daquela casa, quase que não se podia dizer-lhe a cor. Talvez um branco levemente azulado ou um azul claro esbranquiçado com manchas cor de rosa aqui e ali, em algumas partes via-se um verde aguado denunciando as diversa pinturas por que passara através dos anos.
Chapéu–de-couro, margarida, onze horas, erva cidreira, boldo e outras tantas que se misturavam às ervas daninhas, papéis de balas e tocos de cigarros que formavam um conjunto colorido à entrada da casa, tudo isso margeando um caminho de cimento sobre a terra, rachado e enegrecido pelo tempo.
Pelas frestas, via-se o interior humilde e limpo. Do conjunto de som de duas caixas grandes com tweeters, soava forte, Me and Bob Mcgee e, de vez em quando, os sucessos do momento, mas apenas no rádio.
Na sala, um sofá coberto com uma colcha de chenile cor de abóbora, uma mesinha de madeira encostada à parede, num canto, coberta com uma toalha branca sob um vaso com flores artificiais. Na parede, um quadro com moldura ovalada  de pintura barata retratando três crianças com trajes antigos.
Um cheiro  leve de parquetina inundava o ambiente. O ar era frio, mas não úmido, refrescado pelo vento constante que, numa corrente invisível, lambia sem pudor as paredes lisas, o chão de cimento vermelho e o telhado suspenso nos caibros de madeira fina.
Manuela quase nunca estava lá. Trabalhava como professora primária num bairro distante e fazia bicos em outras atividades. Diziam que tinha uma vida obscura, para além dos muros da escola estadual. Sussurravam as fofoqueiras que Manuela  era isso e aquilo. Diziam que tinha um filho, ninguém sabe onde nem com quem. O certo ou quase certo é que o menino era criado pela mãe que morava sozinha no subúrbio.
Manuela gostava de música. Quando abria a casa e estendia os lençóis na janela, um festival dava início. As canções não tinham pátria, as línguas se misturavam como numa Babel sinfônica, quintessência do bom gosto: blues, rock, samba de Cartola, Adoniram e Batatinha; Chico Buarque, Rita Lee, Caetano, Pink Floyd , Yes, Led Zeppelin, B. B. King, Beatles, Piazola, Bessie Smith e Miles Davis.
Manuela não era bonita nem feia. Manuela era Manuela. Não gostava de ser vista nem ouvida. Dizem que era feliz à sua moda; que namorava um garoto de dezesseis para contrastar com os seus 37 e não dava bola pra ninguém.
Manuela, sua casa e sua música. Assim foram-se os anos de Manuela e dos amigos de Manuela e dos gatos malhados rondando e roçando na porta para entrar.
Certamente existe um tempo e um lugar fora dos tempos e dos lugares para onde vão as Manuelas, suas casas e suas músicas; para onde vão as as palavras iluminadas pela poesia da vida. Strawberry fields forever, Manuela!

por Sérgio Araújo

sábado, 30 de maio de 2009

Janelas

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As janelas sempre me intrigaram. Há janelas para a escuridão, janelas para uma luz intensa, janelas que permitem vislumbrar recortes do ambiente, como num quebra-cabeças.
As janelas estreitas são como ranhuras na solidão do ambiente; as janelas longas não mostram nada, são espelhos que resguardam o interior das torpezas do dia.
Há ainda as quadradas; as quebradas; as consertadas de última hora; as definitivamente sem conserto.
Mais intrigante ainda são as pessoas às janelas: uma velha solteirona e magricela,um senhor de bigodes largos e poucas esperanças, uma lâmpada amarela, lembranças, crianças.
As janelas das meretrizes,dos aprendizes… Há silêncios que dizem tudo. Discussões acaloradas, brigas, intrigas, velórios.
Um pai angustiado, um marido traído, um filho que chora num canto qualquer; um taco de pão, migalhas no chão, sangue e lágrimas.
A música não pára, taças, vultos coloridos, sorrisos, gritos agudos, um seio suado, um beijo roubado.
As janelas são cicatrizes!

por Sérgio Araújo

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Qualquer dia

 
Quando sair na chuva
Qualquer dia
Desses dias de sair
Dia de ser
Dia desses...
Eu então direi
O que ouço 
O que sei
Direi da estante
Cheia de livros
Dos ingressos antigos
Daquele bilhete de viagem
Já te falei da carta?
(que não enviei)
Do cartão da turma?
Tua foto no panfleto
Um manifesto
Meu poema de protesto
Volta e meia
Ainda saio na chuva
Quem sabe 
Te vejo de novo
Olho no olho
Escrevendo versos silábicos
Incertos
Secretos
Concretos.
por Sérgio Araújo

domingo, 24 de maio de 2009

Noturno

Uma pequena chama navegava tranquila sobre o óleo transparente da lamparina. A penteadeira, além da claridade, exibia orgulhosa um vidro de Diamente Negro, um pente de tartaruga, duas borboletas de porcelana azul e um velho almanaque do Biotônico Fontoura.
Era um pequeno quarto, com cama colada à parede branca, um colchão de palha coberto com o lençol amarelado pelo uso, um urinol e as roupas de ontem penduradas num prego atrás da porta.
- É no pé da máquina - dizia orgulhosa, referindo-se ao trabalho que sustentava o casal.
Justiça seja feita, era a melhor modista da cidade. Mas, se o fato de costurar bem lhe trazia fama e freguesia boa paga, ela andava cansada, resmungando pelos cantos e nem sentia mais vontade de frequentar a casa de Dona Miúda nos domingos à tarde para um café com bolo e recordações.
Sentia-se triste e solitária entre velhos e novos amigos. Até para ele, seu primeiro amor, não mais contava os causos da infância, as aventuras no pomar do avô e tudo o mais que fazia a alegria daquela vida tosca.
Um dia, cansada de tudo, olhou para as estrelas naquela noite sem lua como se fosse pela primeira vez e soluçou, como numa ladainha, aqueles versos de criança que fizera há muito tempo numa noite como aquela.
Sozinha, recitou bem baixinho até que, lentamente, fez-se em palavras pequeninas e frágeis como nuvens de letras que agora voavam ligeiras com suas asas leves de libélula em direção à Via Láctea.
por Sérgio Araújo

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Teu tema

Parece que foi ontem
O teu braço em minhas mãos
O relógio
E você sorri
O teu rosto
Uma rima
O teu oposto
Você ainda me vê?
Eu ainda sou o teu dilema
O teu tema
Ainda te vejo
Breve
Nas luzes coloridas
Na noite que te esconde
Num bilhete
Onde?
por Sérgio Araújo

terça-feira, 19 de maio de 2009

A estrada

A estrada era permanentemente coberta por um céu anterior. Logo que chegou por alí, avistou o vasto deserto com o seu clima ameno, levemente aquecido e acolhido por uma brisa alegre e perene.
Não desejava caminhar, apenas queria sentir o ar acariciando sua pele enquanto divisava ao longe um arbusto verde em folha, em cujos galhos calados, suspirava a ave noturna.
Não havia caminhos outros que acorressem às impávidas construções monolíticas que erguiam-se à sua frente, pois o tempo é efêmero e corre numa velocidade de mãos unidas, numa luz igual e envolvente, pactuando com a natureza onírica do lugar.
Não! Definitivamente ele não era um ator confuso dizendo as falas soltas enquanto o pano caía e o espectador mais atento dormitava sobre um colo prateado.
- Come este fruto seco em plena terra com cheiro de terra - disse-lhe o guia e continuou - seus planos foram desfeitos pois o rumo é infinito e a incerteza é o destino.
- E aquele velho calendário? - Indagou.
- O tempo é agora! Sentenciou - embora as luzes artificiais atenuem teu desencanto, esta estrada é deserta o suficiente para te prender em suas léguas sinuosas.
Foi! Devagar caminhou entre veredas. Viu alhures as crianças no terreiro, os pregoeiros a soluçar maravilhas e as mulheres nos afazeres coletivos.
Agora posso voltar - pensou.
Mas viu-se novamente imóvel, perdido em pensamentos enquanto um cão rosnava, sonolento, ao seu redor.
Virou-se, olhou em volta e sorriu.

por Sérgio Araújo

domingo, 17 de maio de 2009

Cartão postal

 
Aquele era um dos poucos museus da cidade que ainda não havia visitado. Portas abertas, casarão centenário, fachada neoclássica. Como tantos, perdido nos corredores estreitos da cidade católica, caótica e bizarra.
Era uma noite como outra qualquer, exceto pela quantidade de curiosos, cantores, atores, poetas concretos e anexos. No meio de tudo, o poeta e sua musa: uma nota perdida da sinfonia de Wagner. E a ela, diz-lhe à moda de Goethe: "Vinde, doces ilusões que tanto amei na clara manhã da minha vida"!
Um olhar irrompeu o frio néon e atingiu em cheio, por entre as mechas que teimavam em esconder seus olhos, o brilho sonoro de um sorriso fresco e simples.
As luzes vermelhas das lanternas de freios corrompiam o cristal abarrotado de Frau milch.
- O que você quer dizer quando diz que já fez de tudo e só lhe resta fazer de nada?
- Zaúm!
- Você me entende Fräulein? Venha me ver amanhã e te darei as vozes da Bahia. As vozes dos antigos poetas, dos prédios abandonados, das igrejas frias, das águas que escorrem pelas encostas e molham os meninos, descalços à beira mar.
Do púlpito, o velho poliglota fala as suas palavras. O agro vitral desdenha do flash e sobre as cabeças da assistência, reluz de viés.
Do outro lado da rua, a tua lua segue os transeuntes com agilidade e indica o itinerário: vai pela vitória...
Mais tarde, era só reler aqueles poemas antigos que diziam de tudo e de nada e, como num encanto, a doçura voltava.
Aquela era uma das poucas memórias da cidade que ainda não havia contado.
Holzstatuette mit Goldüberzug. Der König Tutanchamun
por Sérgio Araújo

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Minha mão poética

Minha mente concreta
Não desliza no papel,
Salta.
Saculeja indomável
Sobre pautas paralelas.
Minha pena discreta
Sobrevoa palavras
Já escritas
Bafejadas pelo tempo,
Desvendando ritmos e dimensões.
Minha mão poética
Tem vontade própria,
Gosta de espaços infinitos
E tinta preta.
por Sérgio Araújo

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Na porta

Parada
Na
Porta
Suporta
Ereta
Beija
O
Vento
Que
Te
Lança
Pra
Dentro
Suposta
Seja
A
Porta
Que
A
Lança
Não
Importa
Ventania
Adentra
Suplica
Que
Te
Beije
Na
Porta

por Sérgio Araújo

domingo, 10 de maio de 2009

À sombra do vento


Fala dessa história
Que gira o sol do girassol.
Diz que à sombra do vento,
Como um espelho de duas faces
Um ser é um nada,
Clandestino!
Com a cabeça na terra
E os pés no espaço.
E nos lábios,
Um sorriso descontrolado.
Dia-a-dia
À procura de um raio de sol
Numa esquina,
Num disco de rock
Ou num livro de Jack London.
Conta em que janela se passa essa história,
Para que eu possa dizer-te
Que danças sobre pedras quentes
Com braços e pernas de serpente.
E a felicidade
É um pêndulo,
Pendente
Como a espada de Dâmocles.

por Sérgio Araújo




sábado, 9 de maio de 2009

Versos novos!


















Perdão pelo poema que não escrevi!
Quem sabe, seja a noite
Com suas sombras esquálidas,
Talvez seja o dia que me prende
Em seus espaços retalhados.
Perdão!
Pois navego como tantos
No mar de fragmentos,
Frases, fontes e formas.
Perdão, enfim,
Por antever que amanhã
Poderão perdoar-me
Pelo não dito
E que, apesar disto,
Nascerão livres de toda a tristeza,
Versos novos e sonoros
Salpicados de fantasia.

por Sérgio Araújo


terça-feira, 5 de maio de 2009

Decifra-me ou devoro-te!



Para quem não decifrou o poema em código ou o fez e quer conferir, eis aí o poema original.

Vê essas tardes?
Que desprezo exalam
Nestas folhas sonolentas, oscilantes;
Neste céu,
            Metálico céu.
Ouve estes sons?
Quão falsos soam.
Que terrível prisão
Nos acolhe em seu seio de pedra.
Quisera
         Voar
             Com os pássaros
E, súbto, precipitar-me ao chão
Para num sorriso
De corpo inteiro
Fundir-me à terra
                      Numa manhã de sol.

por Sérgio Araújo
           

sexta-feira, 1 de maio de 2009

O gesto!


Parou em plena avenida. À primeira vista, apenas podia distinguir três lumes que incidiam brancos. Mesmo que recortadas, essas pequenas e nervosas formas, fundiam-se num corpo ao fundo que se dissolvia, branqueado, branqueagudo sob um céu enegrecido em escuro contraste com a luminosidade pueril: como uma corexplosão no abismo, uma imagem ritmada, quase espasmocênica.
Pensou que podia voltar para casa e escrever sobre aquele gesto novo que nenhum ser humano ainda havia experimentado e que em seu íntimo sabia que existia. Precisava apenas explorar as dobradiças.
Sim! Todo corpo é único e preciso, mas diverso no “eu” que generaliza e submete a determinados signos universais.
Ah! Um gesto cerebral!
Como pode ser? Pensou enquanto gesticulava ligeiramente. Codificar, Eis a solução.
Todo esse gestual concreto pode libertar, - pensou.
Não! Não é possível fazer-se claro aos cidadãos agônicos que em vão perambulam, reticentes em suas retículas ácidas, diagramadas, cada um ocupando o seu espaço programado.
Tentou ouvir sua própria voz, mais uma vez, para saber se ainda podia falar. Olhou em volta e prosseguiu vasculhando rostos, perfis, silhuetas, diodos e dióxidos.
Disse? Não!
Lentamente, como quem é conduzido pela falta de luz, escorregou como um relógio de Dali entre a multidão ácrata e continuou até dissolver-se completamente num ponto.
Codificado, mensurável, agora estava livre para continuar imune aos apelos de um sentimento humano. “Demasiadamente humano”.

por Sérgio Araújo


quarta-feira, 29 de abril de 2009

Metáforas!

 
Enquanto a faca do horizonte,
Distante,
Corta a carne crua
De uma estrela nua,
O dia sorri na neblina
Estonteante
Como um copo de blues
A transbordar sonoro,
Metáforas soltas
Na transparência efêmera
Que o dia
I  r  r  a  d  i  a.
 
por Sérgio Araújo

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Meninos invisíveis

 
Quando chove na rua dos meninos invisíveis
Um galo canta ao meio-dia
Fazendo arrelia do vigia das madrugadas.
Eles sabem que as flores mais bonitas
São as margaridas das queridas irmãs Marias.
Saltam, correm,
Buscam borboletas nos bosques
E os postes são palitos pelados que brilham nas noites frias.
Quando brilha o sol nos bicos dos bules
Nas manhãs gulosas das mães Marias,
Os meninos invisíveis
Saltam dos chinelos
Comem, bebem 
E guardam restos de mesa para o vigia do dia.
Quando a noite chega
Com suas meias e ceias,
Os meninos invisíveis se apagam
Em sonhos de gigantes,
Zé-come-lata,
Homem meleca,
Unha do cão,
Rapa tição.
por Sérgio Araújo

terça-feira, 21 de abril de 2009

Nietzscheanas nº 2

 
Estupefata a civilização de pátrias molestadas
Reclama que do alto dos picos
E das cinzas dos abismos
Ouça-se a voz intempestiva a apontar barbáries.
Eis o cálice ditirâmbico!
Quem ousa ultrapassar o círculo ilusório
Que aprisiona, intimida e fere?
Quem, dentre as ovelhas reticentes
Vê o demiurgo que sangra
Em incomensuráveis convicções
E apriorismos imberbes?
Lá está o homem novo!
Eu o vejo
Num dèjavu embriagado de séculos
A irradiar potência numa espiral infinita,
Impregnada das páginas de Kafka, 
Nietzsche, Dostoiévski
E Augusto dos Anjos.
Mestres da modernidade,
Dilacerados em seu tempo,
Anjos e demônios,
Ventres abertos para o infinito.
por Sérgio Araújo

sábado, 18 de abril de 2009

Sumutumba: o comedor de verde!

Temporary Files
Mind index
Maximum monde,
Civilization a quo.
Arcus nimis intensus rumpitur.


Desenho e texto por Sérgio Araújo

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Bar continental

 
De quanto tempo disponho 
Para viver congelado na íris estreita
Desta janela vesga?
Pouco me resta obter
Sem optar por constrangedora aquarela
Pateticamente posta
Sobre a marquise de ferro fundido
Do bar continental.
Não sei por onde anda
aquela disponibilidade sempre presente.
Não sei dispor de um tempo
Fundido em aquarelas, janelas e íris de marfim.
Não sei
Se louco ou santo
É o sonho abissal
Congelado sobre a marquise
Do bar continental.
por Sérgio Araújo

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Nietzscheanas nº 1

Eu olhava para aquelas sombras
Que constantemente dançavam em torno de mim

E o conforto que sentia

Era a solidão,
A distância que de mim se fez constante

E me conservava intacto,

Delirante.

Por muito tempo eu olhei para o abismo

E enfrentei seus monstros itinerantes

Salpicados de realidade

E pesados
Sobre os ombros dos atores ideais.
E aquilo era mau.

Transbordava o peso das correntes

E asfixiava como um nó na garganta.

A voz calada,

A palavra não dita,

A desdita.

Em torno de mim

Selvagens discursos;

Profusão de olhos laterais.

Escolhos,

Que nada viam, eram vistos.

Há luz... Há luz...
E no solstício o solo primeiro percebe

Quem desce para matar a sede de liberdade

E libertando-se

Ainda há tempo

De tocar a réstia,

De dizer a frase,

De ascender infante

A tatear rotinas.

por Sérgio Araújo

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Pequeno glossário futurista - parte I

H
Holofilme - textos imagéticos gerados a partir de objetos bioeletrônicos disponíveis para uso individual e gratuito.
M
Metapólis - Espécie de cidade central que exerce influência geopolítica, ecoomica e cultural em relação às megalópolis satélites. Sede do "Corpus Deliberatio".
Q
Quarto orgânico - aposento climatizado com leitos conectados a vários serviços. Dentre eles: sonhos programados e neuroleitura.
R
Resina quentilométrica - espécie de pavimentação ambientalizada para pistas de pedetres de modo a permitir uma marcha rápida e confortável. 
V
Vitruviômetro - máquinas de exame, diagnóstico e cura para pessoas enfermas, disponíveis ao longo das quentilometrovias para uso gratuito da população mediante conexão de chip genético.    

por Sérgio Araújo

sexta-feira, 27 de março de 2009

Jacaré aparece na rede depois de 22 anos amarelando numa gaveta.

 
Causou espanto aquela banhista com um sumaríssimo dental-life, mastigando um doce(vida é mel), á procura do jacaré que cruzou a baía de todos os lixos e, tranquilamente, comeu o caruru da bela hóspede do Mediterranéé.
De Mar Grande ao grande mar de Caixa-pregos, ele pregou fundo o prefixo, o sufixo e o interfixo das efeemes locais. A saber: Eu sou negão! E, boca de 09 pra valer, não recusa um convite sargaçado de uma gata com os pés arregaçados pela "larva migrans", para fazer tatoo surrealista ao sol do meio dia, enquanto você procura um otário pra tomar o resto da sua tubaína.
Agora o sol derrete as bordas do asfalto e o mar avança sobre os banhistas com botas de acrílico fumé.
Não. Não se espante se um jacaré usando óleo de gergelim se deitar ao seu lado em qualquer praia da ilha. Apenas retire os óculos escuros, relaxe e deixe-se embalar pelo mais recente sucesso da dupla Moisés e Messias e sua banda "Mentes em eclipse", enquanto o jacaré degusta a sua galinha assada com farofa.

por Sérgio Araújo

sexta-feira, 13 de março de 2009

Ecos!

 A arte é realmente necessária. Quando fiz este cartão, aí por volta de 1985, eu trabalhava em um misto de gráfica e agência de publicidade. Me foi pedido um cartão de Natal, só que geralmente os cartões deste tipo são muito parecidos: bolinhas, sinos, figuras bíblicas, etc. Eu resolvi inovar e fiz dois tipos: um é este aí de cima. O outro, eu já não tenho mais. O certo é que os cartões fizeram o maior sucesso e foi preciso fazer várias tiragens.
Neste cartão, eu juntei um poster pop do artista plástico Martin Sharp com o autoretrato de Van Gogh e no verso, o poema: continuidades de Walt Whitman.
No balão há uma citação de Van Gogh: i have a terrible lucidity et moments when nature is so glorious in those days i am hardly concious of myself and the picture comes to me like in a dream...
Eis o poema de Whitman:

Continuidades

Nada nunca jamais está perdido
ou pode ser perdido:
nenhuma forma, identidade, nascimento,
nenhum objeto do mundo,
nem vida ou força ou qualquer coisa visível;
não devem as aparências deter
nem a esfera em mudança confundir
o seu cérebro.
Amplos são os espaços e o tempo,
amplos os campos da Natureza.
O corpo lerdo, envelhecido, frio
- brasas restantes de antigos fogos,
esmaecida luz nos olhos -
há de outra vez flamejar como deve;
o sol agora baixo no poente
levanta-se em manhãs e maios-dias
contínuos;
aos canteiros cobertos de gelo
retorna sempre o invisível código
da primavera,
com relva e flores, grãos e frutos
de verão.

Walt Whitman

quinta-feira, 12 de março de 2009

Salinas

Vida de sal e sol
que adentra a aurora
e o mar sereno.
Vida que imprime o rumo,
que infla o pano,
que apruma o leme
e deixa ao vento
as sinas soltas sobre a espuma.

Vida de pescador
que na bruma leve
carrega o barco ligeiro
nas águas plácidas das Salinas.
Vida de coragem, orgulho e fé;
de ver no mar a mãe que ensina,
mãe que cuida, mãe menina.
Vida de pescador.
Vida de todos os sonhos e conquistas,
Vida vivida, atrevida
Docevida,
Margarida.

por Sérgio Araújo

quarta-feira, 11 de março de 2009

O jogo

 "Temos vagas". Era apenas o que se podia ler por entre a neblina que se avolumava em volta da pequena lâmpada acesa sobre a placa suspensa à porta de um prédio velho e ainda em construção.
      Duas batidas na porta e uma mocinha magra de olhos escuros, vivos e longos cabelos pretos, deu passagem para uma sala sombria e iluminada à luz de duas lamparinas colocadas nas extremidades de um balcão de madeira, longo e corroído pelo tempo.
     - Quanto tempo o senhor vai ficar?
     - Apenas esta noite —  respondeu o hóspede noturno.
     A moça conduziu o hóspede até o terraço, passando por uma escada sem corrimão.
     - Então não há leitos individuais? - perguntou o hóspede.
     - Não senhor! Como pode ver, este é o único quarto que existe e aqui estão todos os nossos hóspedes. 
     Dezenas de corpos sonolentos, arrumados em fileiras ao longo das paredes, enfiados em sacos suspensos verticalmente por argolas presas a ganchos de metal. Um único e enorme cobertor suspenso acima das cabeças por fios de nylon, protegia-os contra as intempéries pois não havia teto algum, apenas a noite escura sobre suas cabeças.
     - Quem são essas pessoas? - indagou perplexo o novo hóspede.
     - O senhor não sabe? - respondeu a jovem calmamente.
     - São os jogadores do tempo. Chegam aqui aos montes e aqui permanecem até que o jogo recomece na manhã seguinte.
    - mas que jogo é este? – quis saber o novo hóspede.
    - Ora, ora... Não vá me dizer que o senhor veio aqui por acaso, eu tenho certeza que não. – afirmou a jovem, categórica.
   -Nesse instante, como se já tivesse estado ali por muitas vezes, o hóspede reconheceu o seu lugar junto aos demais, declarou suas marcas e viu-se suspenso, em seu saco de dormir, pronto para fazer daquela noite o ponto de partida para novas vitórias no jogo.
por Sérgio Araújo

quinta-feira, 5 de março de 2009

Frágil

Como um flash, aqui e alí, um após outro; de uns tantos momentos que, no rol sincero das minhas memórias, não aparecem com grande mérito.
Veloz é o trabalho de arrumar - ou seria desarrumar - figuras, rostos, tacos de frases ou cenários pela metade.
Minimalismo em meio ao fog esverdeado de 2022.
Um sorriso esquecido.
Alguém viajou sem se despedir e nunca mais voltou.
às vezes, a memória é assim.
Frágil! Como nós...

Por Sérgio Araújo

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

#18

Parecem infinitas essas tardes
na sonolência das folhas,
no azul metálico do céu.


por Sérgio Araújo

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Rápido!

Lá está,
em meio à multidão
e eu a vejo
como num tape,
com seu sorriso ensolarado.
Rápido me perco
e te encontro
a passar...
Acho que foi naquele automóvel
novinho em folha
e lá se foi
mastigando
bichinhos de açúcar.

por Sérgio Araújo