O importante é que isso tudo deixou, repentinamente, de ter importância diante daquelas palavras em fonte "Arial" que manchavam de preto a parte central do display.
Sentou-se vagarosamente sem tirar os olhos da tela. Minimizou-a em seguida, como que tentando dispersar uma alucinação repentina ou um mal entendido qualquer. Mas, sem êxito, retornou o olhar para aquelas palavras.
- O café está servido, amor, venha logo!
- Já vou! - disse, automaticamente, sem pensar em sair dali naquele momento.
Enquanto ganhava tempo por ter respondido ao apelo da esposa, vasculhou a memória recente, listou mentalmente o estoque de palavras que pudessem refletir o que estava vendo. Aquilo não era, necessariamente, uma surpresa para ele. Já sabia de tudo.
Paralisado, pensava na repercussão do fato. Os descasos, os casos e acasos, as mudanças e, quem sabe, uma surpreendente aceitação.
- Já vou, já vou... - repetiu enquanto se recompunha para o café da manhã de domingo.
Sentou-se para comer meio perdido em projeções e pensamentos contraditórios. Tomou o café como um autômato e vomitou na mesa.
Quando esticou o braço e deslizou a mão sobre a cama, sentiu que estava mais fria do que de costume. Abriu os olhos, estava escuro.
Acordou cansado e as sandálias não estavam no lugar de sempre. Andou nas pontas dos pés até a escrivaninha onde brilhava enevoado o display com moldura preta e pequenas luzes verdes.
No centro de tela uma janela, um quadrado em flash, que exibia silenciosamente um quarto escuro, uma mesa posta, um casal à mesa; a fartura do breakfast e aquela frase que piscava em arial sublinhado: Follow me.
por Sérgio Araújo

















