segunda-feira, 14 de setembro de 2009
No meu caderno
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
Leste
Extenso e estático pórtico
Genérico, caótico.
Guardião do mar, insular.
Do leste o vento
dourado.
Céu mais lindo,
Matutino na primavera.
Barro secular
Escravo no tempo e no lugar.
Erodido em arquitetura evolutiva,
Cativa,
Cooperativa.
Ostra, astro rasteiro
Certo,
Na incerteza dos dias.
por Sérgio Araújo
sábado, 5 de setembro de 2009
Atrás do Trio Elétrico
Desceu do ônibus no Campo da Pólvora, em pleno sábado de carnaval. O tênis novo, bermuda estampada com bolso secreto pra guardar dinheiro e documentos, camiseta regata e três doses de conhaque só pra turbinar a entrada na avenida. O Trio Elétrico dava a volta no Sulacap enquanto Reginaldo deslizava São Pedro abaixo. Ele e uma multidão de mortalhas molhadas, rasgadas, amarradas nas cinturas, arrastadas no chão lambuzado de urina, cerveja e restos de folia.
Reginaldo sonhava encontrar Soninha. Tinha marcado um lero com ela nas imediações do Clube de Engenharia. Ali rolava uma galera legal: a turma da esquerda, alguns roqueiros que não foram pro festival, pra praia ou ficaram em casa ouvindo Black Sabbath; os intelectuais que não pulavam e passavam todo o carnaval discutindo com a turma da esquerda; alguns populares (aqueles das crônicas nas edições de domingo), universitários, bichos-grilos turbinados e, é claro, muita mulher bonita (dos outros).
Aquele pedaço era o local mais quente do carnaval no início dos anos 80. Por ali passavam quase todos os trios e trecos que alegravam a galera. Reginaldo fazia a ponte: um pé na Praça e outro na barraca de Valdir para uma cerveja gelada e uma parada pra cantar as meninas e "se armar" pra mais tarde.
Naquele dia tava tudo certo. Soninha ficou de lhe esperar na mureta do Clube, em frente à barraca de Valdir e nada poderia dar errado.
Enquanto passava por São Bento, Reginaldo ouvia os acordes de Dodô e Osmar na Carlos Gomes e pensava em Soninha lhe esperando na mureta: latinha de cerveja numa mão, um cigarro na outra, os cabelos dourados na réstia do sol que morria na ilha, vermelho.
O Sulacap imponente derramava gente por todos as janelas. Pro lado da Rua Chile, as luzes acabavam de ser acesas e iluminavam restos de Gandhis, aqui e ali, como contas brancas que escapuliram dos colares dos Orixás.
Reginaldo dobrou a esquina. A multidão enchia a rua estreita como sardinha na lata. Empurra pra lá, empurra pra cá e Redginaldo entrou na onda. Não mais andava, era levado numa alegre correnteza que vez por outra se transformava num furacão onde tudo rodava, os pés quase não tocavam o chão e as mãos só tinham lugar acima das cabeças que passavam em profusão. Não eram apenas cabeças, eram braços, rostos suados, latinhas, cigarros acesos, peitos, mãos nos peitos, loló, ladrão, capacete de polícia, pisão no pé, dedo no olho, sovaco na cara e um milagre pra sair dali antes da chegada do próximo Trio Elétrico.
Quase esmagado contra a porta de ferro de uma loja de passagens aéreas, Reginaldo avistou Soninha em cima do muro do Clube de Engenharia. Não se importava mais com os pés encharcados na poça de mijo nem com o odor que exalava da mistura dos perfumes e cheiros da multidão que impregnavam seu corpo molhado de suor. Lá estava ela, linda, de shortinho azul, top colorido e uma flor no cabelo.
Soninha dançava. Não! Não era dança. Era uma coreografia, ela pairava como Francesca de Rimini sobre a multidão que imitava os movimentos de um cavalo mecânico em ritmo acelerado. Seus cabelos escorriam sobre os ombros, os olhos fixos no alto do Trio, as mãos levantadas.
Reginaldo mergulhou na multidão como se estivesse no Porto da Barra. Queimou os cabelos moldados com óleo de coco da morena dos Pernambués com o seu cigarro, atropelou o maluco que cheirava loló e nem se importou, tropeçou numa muquirana e, por um instante, pensou não poder transpor a barreira das bundas rebolantes e dos socos dos malhados. Mas lá estava Soninha e estava perto. Só mais alguns metros.
Reginaldo foi cuspido pela multidão contra uma pilastra do Cine Bahia. Atordoado, caminhou apertado contra o muro a tempo de ver Soninha em cima do Trio, sorriso amplo a caminho do Campo Grande.
Pra Reginaldo a decisão: lavar as mágoas com as cervejas de Valdir ou se deixar convencer pelo refrão que balançava o chão da Praça na voz de Caetano: "atrás do trio elétrico, só não vai quem já morreu".
por Sérgio Araújo
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
micro-blogging pro(vocativo)
Segundo Schiller, a estética ( como espaço de realização criativa) é "o estado mais fértil com vistas ao conhecimento". Declara: "somente aqui nos sentimos como arrancados ao tempo; nossa humanidade manifesta-se com pureza e integridade, como se não houvera sofrido ainda dano algum pelas forças exteriores". É justamente neste intervalo criativo e também reflexivo que o poeta, carregado de realidade, adquire o distanciamento necessário para a produção da sua obra liberto das relações fetichizadas que formam a pseudoconcreticidade que o cerca.
Este distanciamento, nada mais é do que um aconchego ao espaço da criação artística. Porque é justamente na superação da contradição homem repetidor X homem criador, que o poeta realiza um salto qualitativo necessário à produção de novos conhecimentos em forma de arte.
É criando que o homem se objetiva. Segundo Marx: "o homem não se perde no seu objeto quando este se torna para ele objeto humano". Daí, a importância da criação como objeto de humanização e reflexão sobre a realidade para a construção de uma nova realidade.
por Sérgio Araújo
sábado, 29 de agosto de 2009
Elisa
Parou no meio da ponte.
Elisa!
Chicoteou-le uma lembrança.
Por que ela?
Logo ela, tão fugaz...
Embrulhado na chuva fina,
As mãos flácidas,
O olhar perdido.
Flutua.
Não sente o chão,
Não sente o corpo,
A mente ausente,
Apenas repete: Elisa!
Elisa!
por Sérgio Araújo
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
Estrangeiro
Eu bebo o futuro
Como um copo de água fresca
No calor intenso do presente.
Não me apetece o sorriso fácil
Do aqui e agora.
Falsa saída,
Panacéia improvável.
O futuro me pertence
Nos versos silábicos que escrevo.
Eu canto
E minha canção tem pernas longas.
Ela verá os próximos séculos
E mostrará meu espanto,
Não do futuro
Que ainda é distante a cada momento.
Mas do presente
Que nunca existiu.
Cantando sigo
Indecifrável, perdido de mim,
Estrangeiro em minha terra.
por Sérgio Araújo
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
O dia do Oliveira
Oliveira saiu de casa as seis e trinta, como de costume, pegou o seu Chevette dourado e foi para o trabalho.
Aquela manhã não era como as outras de sua vida de funcionário público estadual. O sinal fechado na primeira esquina, pedestres demais na rua esta manhã! O vendedor de tapetes para carro, a gata da lanchonete, os vidros fechados sem ar condicionado, o medo de perder a sua carteira de couro, presente dos filhos no dia dos pais.
Oliveira pensou! Pensou que podia não ser Oliveira. Sim. Podia ser o carteiro, o delegado, seu vizinho, Dona Maria dos bolinhos ou até mesmo Bob, o cãozinho de Mateus, seu primogênito.
Oliveira sonhou acordado! Sim. Sonhou que podia jogar a papelada do trabalho pela janela do décimo quinto andar da Secretaria, beijar a secretária gostosa do secretário, estapear o chefe incompetente e relaxar na sua poltrona por horas a fio sem ser perturbado por ninguém.
Oliveira decidiu! Não. Não mais iria ao Hipermercado aos sábados pela manhã com a patroa e a filharada. Chaves do carro nas mãos sacudindo, bermuda com muitos bolsos para parecer turista estrangeiro, carteira debaixo do braço, a meninada se divertindo e, vez por outra chorando pra valer em algum corredor recheado de brinquedos caros.
Dona encrenca, nem se fala, desaparecia bem na hora de passar as compras no caixa para não dar tempo de devolver os supérfluos e não passar vergonha na frente dos possíveis observadores: creme para cabelos, kit de manicura, algodão colorido, coisas com glitter, flipper, bips e trics.
Oliveira sacudiu a cabeça negativamente. Não dá! Churrasco no domingo não! Cerveja quente do boteco do Pepe, o sol torrando a pele, o banho de mangueira do Valdir com aquela sunguinha do Gabeira, a fumaça, o calor das chamas, as mãos pretas e oleosas, a vizinha gorda, o cachorro latindo, alguém escorrega e quebra o braço. Adeus churrasco.
Oliveira bateu a porta do Chevette com cuidado, trancou-o e pegou o elevador com a secretária gostosa, o chefe de cara amarrada e mais três coitados Oliveiras, senão Pereiras ou quem sabe Silveiras e foi trabalhar naquela manhã de segunda-feira.
por Sérgio Araújo
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
O olho de Sócrates
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
Um caminho nas nuvens
Na estrada
Uma pergunta escondida
Juntos buscando um caminho nas nuvens
Num céu dourado
Numa chuva colorida
Que só eu vejo
Mas entendo o seu jeito
De me dizer com os olhos
Nós somos pura história!
Com os pés descalços
Com o sol no rosto
Uma inteligência de óculos
D. Juan, Lobsang,
Aonde estamos indo?
Não importa
Eu não fechei a porta
Ainda sonhamos
Que somos crianças
Brincando com o vento
Dançando sem tocar os pés no chão
Invisíveis, eu juro!
Rock and Roll
Pétalas
Piras
Sim!
por Sérgio Araújo
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
O artista da solidão embriagante
Oh! Senhor das colheitas e das flores que brotam nos jardins do fim do mundo.
Eu sou Severino. O servo aleatório. O penitente na terra violada. O artista da solidão embriagante.
O pórtico está aberto e a jornada vai começar.
Por hora vos digo: do nada nada se cria, exceto a fantasia! E desta sou o criador e curador.
Silibrina da face orvalhada, como Lady Godiva, embriagada até o gargalo, dissonha o que antes era aconchego e canto quente, para soltar do ventre em chamas, o rebento seco como o lajedo da capoeira.
Meu coração é de barro, das barrancas do rio, das pisadas do gado leve em pele e osso, sim senhor.
Quando cantou, "Joana flor das alagoas", o canto da terra, o lampião acendeu em noite ligeira e relampiou nas telas de zinco.
Naquele instante, eu nasci! Bezerro novo na poeira dos dias, arauto das primeiras horas, que ainda nas mãos da véa Aniceta, num choro embargado, risquei o espaço com o olhar duro para as frestas da taipa.
Na rabeira das palavras, cantei num canto salitroso as desditas dos couros secos no rol das plagas e resmunguei meus versos pros ouvidos rotos.
Canto, meu senhor, porque velado é o tempo que assombra minhas certezas e me impõe rolar o verbo na brancura calva do papel.
Oh! Senhor das colheitas e das flores que brotam nos jardins do fim do mundo.
Eu sou Severino. Servo já não sou.
Meu penar me fez crescido e nas artes me fiz príncipe.
Codinome voluntário pra espalhar letras miúdas e outras tantas graúdas nas folhas que correm mundo a fora.
por Sérgio Araújo
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
Sabe quando você tem certeza?
Sabe quando você tem certeza
E ninguém parece se importar com a solução?
Quando todos emperram
E só você é ação?
Quando dizem acabou
Você ignora porque sabe alcançar?
Entende o motivo da estranheza
Mas caminha, mesmo que devagar?
Ontem me disseram não haver amanhã.
Não da forma como eu queria.
Janelas não se abrirão para um céu azul,
João não beijará Maria,
Canteiros inteiros, estilhaços no chão.
Sabe?
Hei de apurar minha visão,
Conspirar, conjurar, subverter, revolucionar;
Lançar palavras num balão,
Letras inteiras num muro intocável.
Sabe, quando você tem certeza
Não está só.
Há uma rede clandestina
Esperança, confiança
Seja qual for o nome da trama,
A gente não se engana
Se suja, se fere, aposta tudo
E sorri pro céu azul
Sorri pra Maria, sorri pra João...
por Sérgio Araújo
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
Followers
O importante é que isso tudo deixou, repentinamente, de ter importância diante daquelas palavras em fonte "Arial" que manchavam de preto a parte central do display.
Sentou-se vagarosamente sem tirar os olhos da tela. Minimizou-a em seguida, como que tentando dispersar uma alucinação repentina ou um mal entendido qualquer. Mas, sem êxito, retornou o olhar para aquelas palavras.
- O café está servido, amor, venha logo!
- Já vou! - disse, automaticamente, sem pensar em sair dali naquele momento.
Enquanto ganhava tempo por ter respondido ao apelo da esposa, vasculhou a memória recente, listou mentalmente o estoque de palavras que pudessem refletir o que estava vendo. Aquilo não era, necessariamente, uma surpresa para ele. Já sabia de tudo.
Paralisado, pensava na repercussão do fato. Os descasos, os casos e acasos, as mudanças e, quem sabe, uma surpreendente aceitação.
- Já vou, já vou... - repetiu enquanto se recompunha para o café da manhã de domingo.
Sentou-se para comer meio perdido em projeções e pensamentos contraditórios. Tomou o café como um autômato e vomitou na mesa.
Quando esticou o braço e deslizou a mão sobre a cama, sentiu que estava mais fria do que de costume. Abriu os olhos, estava escuro.
Acordou cansado e as sandálias não estavam no lugar de sempre. Andou nas pontas dos pés até a escrivaninha onde brilhava enevoado o display com moldura preta e pequenas luzes verdes.
No centro de tela uma janela, um quadrado em flash, que exibia silenciosamente um quarto escuro, uma mesa posta, um casal à mesa; a fartura do breakfast e aquela frase que piscava em arial sublinhado: Follow me.
por Sérgio Araújo
sábado, 1 de agosto de 2009
Monólito
Eu reconheço este perfume que, de tão íntimo,
Abre janelas na minha previsível singularidade.
Vagando em nuvens de palavras,
Rostos e pedaços amorfos,
Estruturas e monólitos,
A saudade indecifrável.
Teu rosto no rosto de pedra,
Minhas mãos no teu rosto de seda.
Tristeza e alegria.
Parcos ângulos obtusos
Silêncios redondos
Rodopiam na valsa confusa da memória.
Pinçar retalhos de certezas completas
Que já não valem mais
Brinquedos, são o que são.
Afasto agruras,
Deixo passar o beijo, o olhar de desejo,
A noite eterna
E o dia submerso na maciez da pele.
Falas,
Amigos,
Um futuro distante que hoje é presente
E a gente nem sente.
Deixo aberto o portal antropofágico,
A desordem,
O exatamente inverso do que sou
Para soar humano
Na natureza caótica do meu corpo
E na coerência do sonho.
por Sérgio Araujo
segunda-feira, 27 de julho de 2009
quinta-feira, 23 de julho de 2009
Raso
O sol tostava a minha pele. Os meus olhos, impregnados de azul, com muito esforço reconheciam o marrom que manchava a aridez do chão. Acolá, testemunhas das agruras da terra, calangos assentiam solenemente sobre a rocha agressiva.
Também vi o tempo escondido na tez ressequida das crianças, enquanto ouvia o grito desafiador do carcará que pairava solene sobre a terra inóspita e agreste.
A sede ardia. Uma cadela manca, em pele e osso passou alheia à intromissão desajeitada dos tênis empoeirados. O Raso é tão profundo na amplidão da paisagem.
O espinho não fura o couro do gibão. A cavalgada é lenta entre galhos secos. A terra de Lampião, luz, fifó. Terra de repetição, jagunço, morte na curva da cova.
Seu Rufino, ainda menino viu as retiradas e viajou as léguas do Santo, cumpriu promessa, gesso e cera pro museu das lapas.
O sol ardia no azul e amarelava o chão de pó. Continuou assim até desfazer-se em silêncio dourando tudo, silêncio profundo cortado por grilos e pios.
por Sérgio Araújo
foto-flickr-Glauco Umbelino
domingo, 19 de julho de 2009
A Praça

Jazia ali, cinematograficamente estendido sobre os paralelepípedos da rua. Ao seu redor, uma pequena multidão de curiosos. Eram donas de casa sujas das suas rotinas diárias e incansáveis na repreensão às traquinagens dos filhos, os feirantes estabelecidos no marcado municipal e que, na correria, traziam ainda nas mãos calosas, as mercadorias
que comercializavam no exato instante em que o fato acontecera.
Para lá acorreram também os populares, cidadãos sem rostos e de história comum. Gesticulavam enquanto davam fim a um assunto banal antes de se apresentarem ao local da tragédia.
O cego cantador levantou de sua esquina predileta, esbarrou no crente Deusdeth que atirou para longe a Bíblia Sagrada como um pássaro preto alçando voo no coqueiral.
Até o mascate abandonou às pressas a sua mala da cobra e pôs-se em marcha paralela aos dois soldados rasos e um delegado que avançavam autoritários rompendo a multidão.
O Dr. Sócrates, médico respeitado mais pelo seu caráter que pelos conhecimentos da medicina, caminhava apressado segurando a velha valise de couro preto puída e de alças redondas.
Nessa altura, garrafas de cachaça corriam de mão em mão sobre as cabeças na praça.
Sobre a marquise da padaria acotovelando-se, um bando de edis tresloucados pela quantidade de eleitores ali presentes, exortava o povo a ouvir um improviso de oito páginas que já começava a se dissolver em palavras toscas tecendo uma peça tragicômica que só a ignorância e a rudeza da vida interiorana pode revelar.
Num instante, o círculo se fecha mais e mais, a multidão aproxima-se do corpo inerte, o murmúrio aumenta. De repente o silêncio. As cores se desmancham desaguando em sépia, a cena retida numa pequena superfície retangular rotaciona para a direita flutuando sobre um fundo escuro.
por Sérgio Araújo
sexta-feira, 17 de julho de 2009
Cavaleiro torto
Um cavaleiro torto
De silhueta neogótica
Percorre o caminho, sorrateiro
Na lama putrefatalenankin
Filho da arca pulga tricha
Esbilte pilotron sanguessuga
Mimética solução humanóide
Lesa-forma vil vivente
Um cavaleiro de longa esfera
Filho da arca sila troncha
Caminha indeciso
Na prima lama dicotômica
Cata tenso, na orla empolada
Finos fios de palavraspontes
Para dizer fundante
O que nunca fora antes.
Um cavaleiro torto
Pouco
Só
Intrépido arcanjo rococó
Arremata a vida num poema
Como laço ou como nó.
por Sérgio Araújo
quarta-feira, 15 de julho de 2009
Tempo curto
O tempo é curto
O tempo é mudo
O tempo não cabe no meu mundo.
Eu curto o tempo
Mudo num segundo
Meu mundo não cabe no tempo.
por Sérgio Araújo
Foto:out of time - flickr - alicepopkorn
domingo, 12 de julho de 2009
Azul
Capítulo XXII
O anúncio fixado na porta de entrada da casa de V escrito em fonte Old English informava, solenemente, a chegada do casal, em lua de mel há uma semana.
Pela porta semiaberta penetrava um réstia de luz do sol que imprimia, em tons dourados, um triângulo retângulo no chão de madeira polida.
Sentada, bordando um pano qualquer para matar o tempo, V suspirava enquanto pensava na recepção: flores do campo, cheiro de jasmin, música alegre, bebida farta e borbulhante, salgados e doces, ah! muitos doces.
Iluminado, o jarro de porcelana verde refletia a luz do sol em raios frios e animados projetando na parede uma infinidade de pequenas partículas multicoloridas.
V não era bonita como a noiva. V tinha sonhos românticos como toda jovem de sua idade. Mas V não era bonita como a noiva. Era inteligente! Na verdade, era muito mais inteligente que sua irmã. Não fosse pelo "defeito", como costumavam dizer referindo-se ao fato dela não poder andar, coisa de nascença, V certamente seria a preferida do, agora, marido de sua irmã.
Em sua insignificância aparente, ela era extremamente produtiva. Além dos cuidados da casa, ela escrevia. Amante nenhum nesse mundo teria escrito cartas e poemas tão belos quanto os que V moldava com lágrimas, na matéria indiferente do papel, em suas eternas noites de insônia.
V é tão jovem!
Mesmo que os verões esbanjassem claridade e velocidade às vidas daquela casa, V era inverno! Não que deixasse a alguém perceber a sua tristeza, ela simplesmente congelava em sua solidão enquanto ria e conversava sobre os dias e as coisas. No seu exílio, criava. Escrevia sobre vales verdes e serenos, sobre montanhas cujos picos alcançavam as nuvens e as águias faziam ecoar seus gritos pelos ares, descrevia terras imaginárias, lagos tão extensos, oceanos tão profundos, pessoas tão belas e boas quanto ela.
V é tão bela!
Bordando, ia criando. Criando uma festa de casamento, um amor delicado, uma figura que escapava do seu pensamento toda vez que tentava vislumbrar um rosto, uma mão, cabelos ao vento, sol no rosto, sorriso. Via sem detalhes, como quem adivinha. Mas, mesmo assim, ela queria poder dizer que amava, que sonhava e vivia.
Não importa se eram tantos os presentes que enchiam o seu quarto de uma graça comprada aqui e ali, sem identidade, apenas coisas brilhantes, felpudas e sonoras. V queria viver para além daquele quarto e sentir-se plena nas coisas do mundo.
V é frágil!
Diluindo a triângulo e espalhando luz por todos os cantos da sala, entra o casal em plenos sorrisos e conversas. Acorrem todos, o som se espalha como a água sobre a toalha da mesa, reluzem os metais, gestos e frases, palavras e respingos
Distante daquilo tudo, lenta e silenciosamente, a mão escorrega sobre o peito e repousa suavemente sobre o pano. Fechados os olhos, V agora jaz, pequena flor sobre uma rocha bruta.
Fecho o livro e vou dormir, sereno, como uma melodia de Bossa Nova.
por Sérgio Araújo
foto: flickr - alfaneque
sexta-feira, 10 de julho de 2009
Esquina
Agora que estamos sós
Juntos, mas distantes
Como numa esquina
Sem um ponto de encontro
Vejo passar o tempo
Olho pro céu
Gotas de memórias
Molham meu rosto
E não há nada que eu possa fazer
Nem ontem
Nem hoje
Eu quero estar com você
Naquela praça
Depois da esquina
Eu não sei...
O tempo diz não
E mesmo que o desejo
Seja a bola da vez
Eu não te enconto
Depois da chuva
Com o sol no rosto
Naquela esquina.
por Sérgio Araújo
imagem: Van Gogh-Boulevard de Clichy
quarta-feira, 8 de julho de 2009
Olhos
por Sérgio Araújo
sexta-feira, 3 de julho de 2009
Torturado
Com o corpo parcialmente escondido atrás do poste de madeira, espiava a rua à sua frente, nem se deu conta de que os seus algozes, nesse instante, já faziam o cerco e se aproximavam perigosamente da sua posição.
Parado! Pro chão, pro chão!
A sirene estridente da viatura preta percutiu em sua cabeça.
Capuz, pontas dos pés arrastadas nas poças d'água, porta aberta, corpo jogado no banco traseiro, motor, fumaça no escapamento, pneus cantando...
Num baque, espirrando água para todos os lados. Ei-lo sentado na cadeira de ferro, daquelas antigas que eram doadas pelas companhias de bebidas para servir às barracas de festa de largo, enferrujada e meio torta em uma das pernas.
Uma cela de 9m². Num canto um aparelho de televisão exibia Xuxa Só Para Baixinhos. A cada par de horas, em alto volume, ressoava um pagode romântico daqueles cuja banda tem mais de 12 componentes.
A situação era tão absurda que tentou suicidar-se implorando para assistir um Globo Repórter inédito sobre dieta saudável, mas seus carrascos tinham outros planos.
Na semana seguinte, desfaleceu após sessões diárias de propaganda de loja de eletro-doméstico, materiais de construção e supermercados.
Enlouquecido tentava engolir o acarajé de caixinha no intervalo entre duas doses de vodka fabricada no interior de Sergipe, numa tentativa desesperada de pôr fim àquele sofrimento terrível.
O barulho do pino de ferro arrastando no chão de pedra, a luz que escapa para dentro da cela vai revelando aos poucos, num canto, um corpo que mais parecia uma mancha, uma bolha pastosa e esverdeada.
Ao lado, escorregando do que parecia ser o bolso de uma calça de tergal, engosmado, o cartão de crédito de uma butique de sacoleira, uma foto dele com pose de Rambo na guarita do Tiro de Guerra e uma mecha de cabelo de Margarida, a periguete que conheceu no auditório do programa do Bocão.
por Sérgio Araújo
quarta-feira, 1 de julho de 2009
Upload
Sentado em frente ao monitor com os olhos fixos no centro da tela esperando algo ou alguém, absorto. Só, em sua inutilidade semanal, não percebeu a vigilância fria e panótica da Webcam que penetrava em seu corpo como um raio-X e, sondando os seus mais remotos pensamentos, impingia-lhe uma alienada exposição.
- Alô! - rompendo o silêncio - uma voz aveludada, um sussurro de fêmea etérea.
Como quem desperta de um sono profundo, foi, aos poucos, se acostumando com o ambiente nebular do display até sentir o impacto das mãos com o teclado, abaixo.
Digitou alguma coisa, sem nexo, meio parecido com o vernacula utopiensium e virou-se em plano médio americano procurando a webcam que, agora, deslizava tranquilamente num ângulo de 180º.
- Alô - repetiu a voz etérea. - Alô senhor! Favor digitar seu user name e password enquanto confirmamos o contato visual. Lembramos: esta fase do processo é muito importante para preservar o link enquanto fazemos à transliteração dos dados. Aguarde, por favor.
Atordoado, ele tentava corresponder às exigências da máquina enquanto se maldizia por não ter lido os "Termos de Uso" e a "Política de Privacidade", agora era tarde, o dedo ágil digitara as últimas letras da senha resvalando num clic instintivo para enviar.
Enquanto aguardava novas instruções minimizou a janela do Player e pôs-se a observar atentamente o caos alfanumérico que enchia a tela e contornava um pequeno campo retangular, quase um banner oco, revelando o branco excessivo do cristal líquido.
- Agora, senhor, por favor digite uma frase qualquer para que possamos iniciar o download - carinhosamente pedia aquela voz serena que, de maneira alguma podia ser uma gravação dessas que existem aos montes nas telecomunicações.
- Mas que raios de frase eu devo escrever? - pensou! Estendeu os dedos sobre o teclado e permaneceu nessa posição até que, como um relâmpago, cortando os seus pensamentos desordenados, surgiu: " o que você quer de mim?" Então, com os dedos pesados de ansiedade, digitou.
Voltou os olhos para o monitor que parecia mais Gaussian Blur do que estava antes.
- Senhor? Agora permaneça imóvel para possibilitar uma melhor performance do scanner.
Pela primeira vez, enquanto permanecia congelado numa pose de 3x4, irritou-se com aquela situação. Afinal, o que queriam com ele? Não bastavam os updates daquela semana? Acaso não teria solucionado os problemas de instalação do novo pack? Não teria reportado aquele bug? Nada parecia estar "batendo".
- Senhor? The key, the end, the answer!
Foi então que entendeu tudo aquilo. Claro, só podia ser o sinal que esperava. Imediatamente iniciou o upload a partir das memórias mais remotas da sua vida que agora eram transmitidas através de um raio caleidoscópico para a ávida lente da webcam que se aproximava num zoom ótico
por Sérgio Araújo
sábado, 27 de junho de 2009
Silêncio
O tempo escoou
E eu estou longe
Não te observo mais
Andando descontraida pela calçada
Ou deitada no chão
Com um olhar perdido
Imaginando utopias
Silenciosa ilha.
O tempo passou
E eu estou sozinho
Pensando em você
Sonhando, deitado no chão
Observando
O quadro na parede
Minha utopia.
Pensei num tempo
Andando com você
No caminho do mar
Na trilha das pedras
Sem tempo
E sem espaço
Descalços no fim do dia.
por Sérgio Araújo
Foto:www.flickr.com/photos/sergemelki/
quinta-feira, 25 de junho de 2009
Súbito
segunda-feira, 22 de junho de 2009
Vamos acordar!
Tocou o chão com os pés descalços e retirou-os imediatamente, estava fria demais aquela manhã e ainda não era junho. Com muito esforço, sonolento, endireitou-se na cama e fixou os olhos no telhado baixo e escuro para ver se já havia amanhecido. Inclinou-se um pouco para frente e ligou o rádio de três faixas que ficava sobre uma mesa improvisada com cavaletes de construção.
- Vamos acordar! - dizia a vinheta do programa numa voz meio caipira, de quem diz porque diz, seguida por uma canção sertaneja das antigas, tipo Cascatinha e Inhana.
Cambaleou até o fogão de lenha, pegou o querosene numa prateleira, restos de palha de milho e varou o lusco-fusco com a chama do fósforo, num estalo.
Lá fora os primeiros sons da passarada anunciavam o dia. Um cheiro de fogueira acesa tomou conta do ambiente. Cheiro quente que logo se fundiria com o bafo de café barato e de pão dormido esquentado sobre a chapa de ferro.
- Vamos acordar! - repetia desafiando, o locutor.
Naquela manhã, despertara com a lembrança de um sonho ou talvez fosse uma impressão, um sobressalto capaz de deixá-lo pensativo e meio triste. Não era tristeza, mas nostalgia. Era uma lembrança sem se lembrar, um perfume que persistia e não se dissolvia na água que agora banhava o seu rosto.
- Eu sou tão jovem! - Que lembranças pesam em minha mente? Que portas deixei de abrir? - Pensou enquanto sentava-se para engolir o café com pão.
Talvez seja ela. De quem não vejo o rosto. Vejo apenas os longos cabelos, a atmosfera alegre e onírica, uma cumplicidade, ternura.
- Quero voltar ou seguir? O que procuro está no passado ou no futuro? - pensou enxugando uma lágrima.
O rádio agora transmitia as notícias do dia.
Enquanto se olhava no espelho, tentava afastar aqueles sentimentos. O sol tomou conta da pequena sala vazia. Lá fora as pessoas passavam, alguns meninos fardados iam para a escola e o pára-brisa do automóvel no lado oposto da rua refletia o sol em seus olhos a ponto de não ver mais nada.
- Acordei! - disse com voz de locutor de rádio e bateu a porta.
por Sérgio Araújo
sexta-feira, 19 de junho de 2009
Palavrascoisas
Nada
Um vazio
Onde outrora havia palavras
Palavras coisas
Cantantes
Sonoras
Como uma flauta doce
Saltitante
Palavras moventes
Movediças
Palavras lisas
Cordilheiras lexicais
Transmentais
Nada
Um vazio
Vaso
Um Verbo
Ao acaso!
segunda-feira, 15 de junho de 2009
sexta-feira, 12 de junho de 2009
O velho professor
Teve o seu tempo. Fertilizou-o com suas letras envergadas pelo peso dos sentimentos e, acolá, esvoaçantes como um bando de serenatas ao luar. Construiu versos bêbados, outros encantados e sonoros como o dedilhar das cordas de um violão numa melodia vaga e veloz.
Ele sabia e repetia para quem o pudesse ouvir que o tempo é uma agulha arteira e tece com eficácia o texto dos dias. O velho professor sorri de soslaio e acena imperceptível para os olhos incautos dos visitantes. Naquela sala, o antigo divã roça seus fios arrepiados pelo desgaste, no pé-direito que se ergue solene em grossa camada de tinta azul entrecortada pelas estantes robustas que transpiram leitura, conhecimento em forma de nuvens de palavras, que ainda circulam alterosas pelo ambiente.
Teria sido em São Petersburgo, naquele passeio, do lado direito da Nevski, olhando as belas vitrines numa tarde de verão? Ah! Sim. Com certeza! A paixão foi fulminante e nada nem ninguém poderia tirar-lhe das mãos, aquele livro. Daquele encantamento, brotaram versos e prosas que encheram páginas e mais páginas do seu caderno de capa dura.
O velho professor que agora sustenta um sorriso matizado percorreu mundos e destrancou portas; modernizou-se nos bulevares de Paris. Em seus intensos devaneios, ele percorreu os meandros dos edifícios populosos de Praga para desvendar os mistérios das Moiras.
Se pensas que o pote estava cheio a derramar palavras como a banheira de Arquimedes, estás enganado, meu caro amigo. Aquele velho didata sabia que, como as areias do Saara, o conhecimento não tem fim. Deleitava-se a recordar blowup e aquela cena; não, não era uma cena de cinema, mas uma obra de arte; uma hélice enclausurada no enquadramento em preto e branco; luz e sombra.
Vez por outra, matava a sede revisitando séculos, passeando pelos jardins da Academia e sentando-se à mesa com Sofia, a bela dama, sempre espantada diante da simplicidade mas, carinhosa, em cujo colo suspirou olhando a noite estrelada, sem respostas.
Estava tudo ali, para quem quisesse ver: as histórias, as memórias e, mais que tudo, aquele metasorriso. É isso mesmo! Um metasorriso, um sorriso em si mesmo, encharcado de orgulho intelectual que a modéstia resguardava ante a imprecisão das opiniões alheias.
Desbravador implacável, exímio conhecedor dos caminhos nas estepes; saltador de montanhas e explorador de florestas tropicais. Por onde quer que andasse a imaginação dos poetas, lá estava ele, crítico mordaz, doce agnóstico a comover-se diante da beleza.
Suspenso estará sempre, nos ares, como as nuvens a apreciar contente a gente que ali aprende e que, como ele em sua infância, sonha um dia saber as respostas escondidas nas coisas e admira aquela figura suspensa, retratada em cores sóbrias. O velho professor, que não morre nunca, pois sobrevive não apenas na memória dos aprendizes, mas nos sonhos que brotam dos poetas.
por Sérgio Araújo
terça-feira, 9 de junho de 2009
Blue and Green
A noite caiu pesada como chumbo sobre sua cabeça. No cais, à espera de Penélope, observava a dança das luzes da cidade refletidas na água. Pensava nas desilusões que a vida lhe trouxe e como aquela mulher havia penetrado fundo no seu coração. Como era serena aquela paixão, como se assemelhava a "Blue in Green" que outro dia tivera a felicidade de ouvir no Café Solano.
O cheiro da noite, o frio da madrugada e a espera. O último cigarro ainda queimava entre seus dedos e novamente aquela melodia.
Intrigava-lhe a maneira como ela entrou na sua vida. Um táxi em plena avenida frenética numa tarde de verão. Os prédios refletiam a intensa luz do sol e do lado oposto da rua: cabelos ao vento, sorriso pleno, decote generoso, mas comportado, quase sincero.
Não tomou o táxi, correu como um louco entre os carros para acompanhá-la. Numa disputa enlouquecida e unilateral com os transeuntes que caminhavam à sua frente, apostava com um depois do outro, pontos de chagada determinados pela proximidade com ela. Era uma maneira divertida de vencer terreno e se aproximar do alvo.
Podia vê-la chegando, podia sentir o seu perfume mesmo embaralhado nos diversos cheiros da rua naquela tarde. Enquanto se aproximava, cada vez mais rápido, pensava se devia falar-lhe, contar da sua paixão imediata, das loucuras que seria capaz de fazer para lhe agradar, das noites incontáveis de amor e vinho.
Penélope caminhava como quem avança para os braços do primeiro amor. Dir-se-ia que flutuava sobre sua felicidade. Não pisava as pedras portuguesas da calçada e ele estava ali, do seu lado, calado, olhando de vez em quando para merecer um sorriso que não se apagasse quando ela, por fim, se voltasse para ele.
O néon meio apagado e avermelhado do bar se avolumava através da chuva fina e Penélope não chegava. O som estridente da rotina policial podia ser ouvido misturando-se ao trompete de surdina que vagava sonolento na bruma do cais.
- Senhor M? - perguntou-lhe o homem de chapéu à sua frente.
Não respondeu. Atirou o cigarro na poça à sua frente e acenou indicando que o seguiria. Fez todo o trajeto em silêncio: o carro veloz deslizando no asfalto molhado, o prédio branco, a sala de espera, o corpo.
Um vulto vagou perdido, quase invisível diante das luzes das vitrines vazias até perder-se na escuridão. No bar da esquina que acabara de dobrar tocava Blue in Green, onde muitas Penélopes iluminavam o ambiente como notas musicais na noite fria.
por Sérgio Araújo
domingo, 7 de junho de 2009
36º
Um papel
Um recado
Um recibo rasgado
Quinze mil cruzeiros
Em outubro de 84
Um cigarro
Um cinzeiro
Populares de Cuba
(Fumar daña su salud)
Rio de Janeiro
Eu não fui pra Aruba!
Li Artaud e Baudelaire
Chutei urna no palco
Meu poema silábico
Você lê se quiser
Sua voz embargada
Na hora marcada
Você diz o que quer
Dança e protesta
Manifesta!
Lê aquela brochura
Ainda há Ditadura
Nós queremos diretas!
Mas ficou no papel
Agora rasgado
Um recibo solitário
De um sonho sonhado
Registrado
No CPF e RG
Cadê Você?
por Sérgio Araújo
quinta-feira, 4 de junho de 2009
Quem sabe um dia
Quem sabe um dia
Eu te mostro a lua
Com sua luz metálica
Numa noite fria.
Quem sabe amanhã
A estrada é deserta
A noite é prata
A relva é vasta
E tua voz é leve
Como uma navalha
Cortando o silêncio.
Quem sabe não esqueço
Teu endereço
E a luz da lua
Nos teus cabelos.
Talvez!
Num desespero de solidão
Na escuridão
Eu possa te ver
Como na primeira vez
Naquela noite
Na imensidão prateada da lua.
por Sérgio Araújo
segunda-feira, 1 de junho de 2009
A casa de Manuela
por Sérgio Araújo
sábado, 30 de maio de 2009
Janelas
As janelas sempre me intrigaram. Há janelas para a escuridão, janelas para uma luz intensa, janelas que permitem vislumbrar recortes do ambiente, como num quebra-cabeças.
As janelas estreitas são como ranhuras na solidão do ambiente; as janelas longas não mostram nada, são espelhos que resguardam o interior das torpezas do dia.
Há ainda as quadradas; as quebradas; as consertadas de última hora; as definitivamente sem conserto.
Mais intrigante ainda são as pessoas às janelas: uma velha solteirona e magricela,um senhor de bigodes largos e poucas esperanças, uma lâmpada amarela, lembranças, crianças.
As janelas das meretrizes,dos aprendizes… Há silêncios que dizem tudo. Discussões acaloradas, brigas, intrigas, velórios.
Um pai angustiado, um marido traído, um filho que chora num canto qualquer; um taco de pão, migalhas no chão, sangue e lágrimas.
A música não pára, taças, vultos coloridos, sorrisos, gritos agudos, um seio suado, um beijo roubado.
As janelas são cicatrizes!
por Sérgio Araújo
quinta-feira, 28 de maio de 2009
Qualquer dia
domingo, 24 de maio de 2009
Noturno
quinta-feira, 21 de maio de 2009
Teu tema
terça-feira, 19 de maio de 2009
A estrada
por Sérgio Araújo
domingo, 17 de maio de 2009
Cartão postal
quinta-feira, 14 de maio de 2009
Minha mão poética
segunda-feira, 11 de maio de 2009
Na porta
Na
Porta
Suporta
Ereta
Beija
O
Vento
Que
Te
Lança
Pra
Dentro
Suposta
Seja
A
Porta
Que
A
Lança
Não
Importa
Ventania
Adentra
Suplica
Que
Te
Beije
Na
Porta
por Sérgio Araújo
domingo, 10 de maio de 2009
À sombra do vento

Fala dessa história
Que gira o sol do girassol.
Diz que à sombra do vento,
Como um espelho de duas faces
Um ser é um nada,
Clandestino!
Com a cabeça na terra
E os pés no espaço.
E nos lábios,
Um sorriso descontrolado.
Dia-a-dia
À procura de um raio de sol
Numa esquina,
Num disco de rock
Ou num livro de Jack London.
Conta em que janela se passa essa história,
Para que eu possa dizer-te
Que danças sobre pedras quentes
Com braços e pernas de serpente.
E a felicidade
É um pêndulo,
Pendente
Como a espada de Dâmocles.
por Sérgio Araújo
sábado, 9 de maio de 2009
Versos novos!

Com suas sombras esquálidas,
Talvez seja o dia que me prende
Em seus espaços retalhados.
Perdão!
Pois navego como tantos
No mar de fragmentos,
Frases, fontes e formas.
Perdão, enfim,
Por antever que amanhã
Poderão perdoar-me
Pelo não dito
E que, apesar disto,
Nascerão livres de toda a tristeza,
Versos novos e sonoros
Salpicados de fantasia.
por Sérgio Araújo
terça-feira, 5 de maio de 2009
Decifra-me ou devoro-te!

Para quem não decifrou o poema em código ou o fez e quer conferir, eis aí o poema original.
Vê essas tardes?
Que desprezo exalam
Nestas folhas sonolentas, oscilantes;
Neste céu,
Metálico céu.
Ouve estes sons?
Quão falsos soam.
Que terrível prisão
Nos acolhe em seu seio de pedra.
Quisera
Voar
Com os pássaros
E, súbto, precipitar-me ao chão
Para num sorriso
De corpo inteiro
Fundir-me à terra
Numa manhã de sol.
por Sérgio Araújo
sexta-feira, 1 de maio de 2009
O gesto!

Pensou que podia voltar para casa e escrever sobre aquele gesto novo que nenhum ser humano ainda havia experimentado e que em seu íntimo sabia que existia. Precisava apenas explorar as dobradiças.
Sim! Todo corpo é único e preciso, mas diverso no “eu” que generaliza e submete a determinados signos universais.
Ah! Um gesto cerebral!
Como pode ser? Pensou enquanto gesticulava ligeiramente. Codificar, Eis a solução.
Todo esse gestual concreto pode libertar, - pensou.
Não! Não é possível fazer-se claro aos cidadãos agônicos que em vão perambulam, reticentes em suas retículas ácidas, diagramadas, cada um ocupando o seu espaço programado.
Tentou ouvir sua própria voz, mais uma vez, para saber se ainda podia falar. Olhou em volta e prosseguiu vasculhando rostos, perfis, silhuetas, diodos e dióxidos.
Disse? Não!
Lentamente, como quem é conduzido pela falta de luz, escorregou como um relógio de Dali entre a multidão ácrata e continuou até dissolver-se completamente num ponto.
Codificado, mensurável, agora estava livre para continuar imune aos apelos de um sentimento humano. “Demasiadamente humano”.
por Sérgio Araújo






