segunda-feira, 14 de setembro de 2009

No meu caderno


O brilho das cores, festival.
A garota bonita e sua sobra no muro.
Aonde vai?
O cadarço do meu sapato,
O Cérebro do poeta,
A tabuleta que anuncia:
Compro, vendo, troco,
Não me importo.
Ligue pra mim!
O telefone caminha a seu lado.
Hoje voaremos sobre a avenida
Repleta,
solene na valsa dos rostos, em cubos.
Quero te achar
Depois da partida sem despedida,
Dando voltas com os olhos
E tudo  o que gira
Está sob o céu de ontem,
Dentro do meu caderno de capa verde
Que agora é seu.
É meu pretexto
Pra continuar te encontrando
Nos textos que escrevo.
por Sérgio Araújo

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Leste

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Extenso e estático pórtico

Genérico, caótico.

Guardião do mar, insular.

Do leste o vento

dourado.

Céu mais lindo,

Matutino na primavera.

Barro secular

Escravo no tempo e no lugar.

Erodido em arquitetura evolutiva,

Cativa,

Cooperativa.

Ostra, astro rasteiro

Certo,

Na incerteza dos dias.

 

por Sérgio Araújo

sábado, 5 de setembro de 2009

Atrás do Trio Elétrico

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Desceu do ônibus no Campo da Pólvora, em pleno sábado de carnaval. O tênis novo, bermuda estampada com bolso secreto pra guardar dinheiro e documentos, camiseta regata e três doses de conhaque só pra turbinar a entrada na avenida. O Trio Elétrico dava a volta no Sulacap enquanto Reginaldo deslizava São Pedro abaixo. Ele e uma multidão de mortalhas molhadas, rasgadas, amarradas nas cinturas, arrastadas no chão lambuzado de urina, cerveja e restos de folia.
Reginaldo sonhava encontrar Soninha. Tinha marcado um lero com ela nas imediações do Clube de Engenharia. Ali rolava uma galera legal: a turma da esquerda, alguns roqueiros que não foram pro festival, pra praia ou ficaram em casa ouvindo Black Sabbath; os intelectuais que não pulavam e passavam todo o carnaval discutindo com a turma da esquerda; alguns populares (aqueles das crônicas nas edições de domingo), universitários, bichos-grilos turbinados e, é claro, muita mulher bonita (dos outros).
Aquele pedaço era o local mais quente do carnaval no início dos anos 80. Por ali passavam quase todos os trios e trecos que alegravam a galera. Reginaldo fazia a ponte: um pé na Praça e outro na barraca de Valdir para uma cerveja gelada e uma parada pra cantar as meninas e "se armar" pra mais tarde.
Naquele dia tava tudo certo. Soninha ficou de lhe esperar na mureta do Clube, em frente à barraca de Valdir e nada poderia dar errado.
Enquanto passava por São Bento, Reginaldo ouvia os acordes de Dodô e Osmar na Carlos Gomes e pensava em Soninha lhe esperando na mureta: latinha de cerveja numa mão, um cigarro na outra, os cabelos dourados na réstia do sol que morria na ilha, vermelho.
O Sulacap imponente derramava gente por todos as janelas. Pro lado da Rua Chile, as luzes acabavam de ser acesas e iluminavam restos de Gandhis, aqui e ali, como contas brancas que escapuliram dos colares dos Orixás.
Reginaldo dobrou a esquina. A multidão enchia a rua estreita como sardinha na lata. Empurra pra lá, empurra pra cá e Redginaldo entrou na onda. Não mais andava, era levado numa alegre correnteza que vez por outra se transformava num furacão onde tudo rodava, os pés quase não tocavam o chão e as mãos só tinham lugar acima das cabeças que passavam em profusão. Não eram apenas cabeças, eram braços, rostos suados, latinhas, cigarros acesos, peitos, mãos nos peitos, loló, ladrão, capacete de polícia, pisão no pé, dedo no olho, sovaco na cara e um milagre pra sair dali antes da chegada do próximo Trio Elétrico.
Quase esmagado contra a porta de ferro de uma loja de passagens aéreas, Reginaldo avistou Soninha em cima do muro do Clube de Engenharia. Não se importava mais com os pés encharcados na poça de mijo nem com o odor que exalava da mistura dos perfumes e cheiros da multidão que impregnavam seu corpo molhado de suor. Lá estava ela, linda, de shortinho azul, top colorido e uma flor no cabelo.
Soninha dançava. Não! Não era dança. Era uma coreografia, ela pairava como Francesca de Rimini sobre a multidão que imitava os movimentos de um cavalo mecânico em ritmo acelerado. Seus cabelos escorriam sobre os ombros, os olhos fixos no alto do Trio, as mãos levantadas.
Reginaldo mergulhou na multidão como se estivesse no Porto da Barra. Queimou os cabelos moldados com óleo de coco da morena dos Pernambués com o seu cigarro, atropelou o maluco que cheirava loló e nem se importou, tropeçou numa muquirana e, por um instante, pensou não poder transpor a barreira das bundas rebolantes e dos socos dos malhados. Mas lá estava Soninha e estava perto. Só mais alguns metros.
Reginaldo foi cuspido pela multidão contra uma pilastra do Cine Bahia. Atordoado, caminhou apertado contra o muro a tempo de ver Soninha em cima do Trio, sorriso amplo a caminho do Campo Grande.
Pra Reginaldo a decisão: lavar as mágoas com as cervejas de Valdir ou se deixar convencer pelo refrão que balançava o chão da Praça na voz de Caetano: "atrás do trio elétrico, só não vai quem já morreu".
 
por Sérgio Araújo

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

micro-blogging pro(vocativo)

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Segundo Schiller, a estética ( como espaço de realização criativa) é "o estado mais fértil com vistas ao conhecimento". Declara: "somente aqui nos sentimos como arrancados ao tempo; nossa humanidade manifesta-se com pureza e integridade, como se não houvera sofrido ainda dano algum pelas forças exteriores". É justamente neste intervalo criativo e também reflexivo que o poeta, carregado de realidade, adquire o distanciamento necessário para a produção da sua obra liberto das relações fetichizadas que formam a pseudoconcreticidade que o cerca.

Este distanciamento, nada mais é do que um aconchego ao espaço da criação artística. Porque é justamente na superação da contradição homem repetidor X homem criador, que o poeta realiza um salto qualitativo necessário à produção de novos conhecimentos em forma de arte.

É criando que o homem se objetiva. Segundo Marx: "o homem não se perde no seu objeto quando este se torna para ele objeto humano". Daí, a importância da criação como objeto de humanização e reflexão sobre a realidade para a construção de uma nova realidade.

 

por Sérgio Araújo

sábado, 29 de agosto de 2009

Elisa

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Parou no meio da ponte.

Elisa!

Chicoteou-le uma lembrança.

Por que ela?

Logo ela, tão fugaz...

Embrulhado na chuva fina,

As mãos flácidas,

O olhar perdido.

Flutua.

Não sente o chão,

Não sente o corpo,

A mente ausente,

Apenas repete: Elisa!

Elisa!

 

por Sérgio Araújo

 

 

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quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Estrangeiro

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Eu bebo o futuro

Como um copo de água fresca

No calor intenso do presente.

Não me apetece o sorriso fácil

Do aqui e agora.

Falsa saída,

Panacéia improvável.

O futuro me pertence

Nos versos silábicos que escrevo.

Eu canto

E minha canção tem pernas longas.

Ela verá os próximos séculos

E mostrará meu espanto,

Não do futuro

Que ainda é distante a cada momento.

Mas do presente

Que nunca existiu.

Cantando sigo

Indecifrável, perdido de mim,

Estrangeiro em minha terra.

 

por Sérgio Araújo

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

O dia do Oliveira

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Oliveira saiu de casa as seis e trinta, como de costume, pegou o seu Chevette dourado e foi para o trabalho.
Aquela manhã não era como as outras de sua vida de funcionário público estadual. O sinal fechado na primeira esquina, pedestres demais na rua esta manhã! O vendedor de tapetes para carro, a gata da lanchonete, os vidros fechados sem ar condicionado, o medo de perder a sua carteira de couro, presente dos filhos no dia dos pais.
Oliveira pensou! Pensou que podia não ser Oliveira. Sim. Podia ser o carteiro, o delegado, seu vizinho, Dona Maria dos bolinhos ou até mesmo Bob, o cãozinho de Mateus, seu primogênito.
Oliveira sonhou acordado! Sim. Sonhou que podia jogar a papelada do trabalho pela janela do décimo quinto andar da Secretaria, beijar a secretária gostosa do secretário, estapear o chefe incompetente e relaxar na sua poltrona por horas a fio sem ser perturbado por ninguém.
Oliveira decidiu! Não. Não mais iria ao Hipermercado aos sábados pela manhã com a patroa e a filharada. Chaves do carro nas mãos sacudindo, bermuda com muitos bolsos para parecer turista estrangeiro, carteira debaixo do braço, a meninada se divertindo e, vez por outra chorando pra valer em algum corredor recheado de brinquedos caros.
Dona encrenca, nem se fala, desaparecia bem na hora de passar as compras no caixa para não dar tempo de devolver os supérfluos e não passar vergonha na frente dos possíveis observadores: creme para cabelos, kit de manicura, algodão colorido, coisas com glitter, flipper, bips e trics.
Oliveira sacudiu a cabeça negativamente. Não dá! Churrasco no domingo não! Cerveja quente do boteco do Pepe, o sol torrando a pele, o banho de mangueira do Valdir com aquela sunguinha do Gabeira, a fumaça, o calor das chamas, as mãos pretas e oleosas, a vizinha gorda, o cachorro latindo, alguém escorrega e quebra o braço. Adeus churrasco.
Oliveira bateu a porta do Chevette com cuidado, trancou-o e pegou o elevador com a secretária gostosa, o chefe de cara amarrada e mais três coitados Oliveiras, senão Pereiras ou quem sabe Silveiras e foi trabalhar naquela manhã de segunda-feira.

por Sérgio Araújo

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

O olho de Sócrates

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Foi no silêncio da noite,

No lapso do tempo

Que toda a dor se foi.

Do pensar,

Do ser como sou,

Da natureza de mim

Refletida no fundo plano

Da rocha.

Uma tocha!

Inglória figura arquetípica.

De resto, o vazio

O dia é eterno

No tempo que o consome

E some!



por Sérgio Araújo

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Um caminho nas nuvens

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Na estrada

Uma pergunta escondida

Juntos buscando um caminho nas nuvens

Num céu dourado

Numa chuva colorida

Que só eu vejo

Mas entendo o seu jeito

De me dizer com os olhos

Nós somos pura história!

Com os pés descalços

Com o sol no rosto

Uma inteligência de óculos

D. Juan, Lobsang,

Aonde estamos indo?

Não importa

Eu não fechei a porta

Ainda sonhamos

Que somos crianças

Brincando com o vento

Dançando sem tocar os pés no chão

Invisíveis, eu juro!

Rock and Roll

Pétalas

Piras

Sim!

 

por Sérgio Araújo

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

O artista da solidão embriagante

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Oh! Senhor das colheitas e das flores que brotam nos jardins do fim do mundo.

Eu sou Severino. O servo aleatório. O penitente na terra violada. O artista da solidão embriagante.

O pórtico está aberto e a jornada vai começar.

Por hora vos digo: do nada nada se cria, exceto a fantasia! E desta sou o criador e curador.

Silibrina da face orvalhada, como Lady Godiva, embriagada até o gargalo, dissonha o que antes era aconchego e canto quente, para soltar do ventre em chamas, o rebento seco como o lajedo da capoeira.

Meu coração é de barro, das barrancas do rio, das pisadas do gado leve em pele e osso, sim senhor.

Quando cantou, "Joana flor das alagoas", o canto da terra, o lampião acendeu em noite ligeira e relampiou nas telas de zinco.

Naquele instante, eu nasci! Bezerro novo na poeira dos dias, arauto das primeiras horas, que ainda nas mãos da véa Aniceta, num choro embargado, risquei o espaço com o olhar duro para as frestas da taipa.

Na rabeira das palavras, cantei num canto salitroso as desditas dos couros secos no rol das plagas e resmunguei meus versos pros ouvidos rotos.

Canto, meu senhor, porque velado é o tempo que assombra minhas certezas e me impõe rolar o verbo na brancura calva do papel.

Oh! Senhor das colheitas e das flores que brotam nos jardins do fim do mundo.

Eu sou Severino. Servo já não sou.

Meu penar me fez crescido e nas artes me fiz príncipe.

Codinome voluntário pra espalhar letras miúdas e outras tantas graúdas nas folhas que correm mundo a fora.

 

por Sérgio Araújo

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Sabe quando você tem certeza?

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Sabe quando você tem certeza
E ninguém parece se importar com a solução?
Quando todos emperram
E só você é ação?
Quando dizem acabou
Você ignora porque sabe alcançar?
Entende o motivo da estranheza
Mas caminha, mesmo que devagar?
Ontem me disseram não haver amanhã.
Não da forma como  eu queria.
Janelas não se abrirão para um céu azul,
João não beijará Maria,
Canteiros inteiros, estilhaços no chão.
Sabe?
Hei de apurar minha visão,
Conspirar, conjurar, subverter, revolucionar;
Lançar palavras num balão,
Letras inteiras num muro intocável.
Sabe, quando você tem certeza
Não está só.
Há uma rede clandestina
Esperança, confiança
Seja qual for o nome da trama,
A gente não se engana
Se suja, se fere, aposta tudo
E sorri pro céu azul
Sorri pra Maria, sorri pra João...

por Sérgio Araújo

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

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Acordou cansado da fadiga do dia anterior e as sandálias não estavam no lugar de sempre. Teve que andar descalço o que era um verdadeiro martírio, uma coisa intolerável para qualquer hora do dia, quanto mais pela manhã.
Tinha deixado o Desktop ligado quando fora dormir, ou melhor, quando cochilou durante leitura telegráfica dos e-mails e não se lembrava como chegou à cama. Era fato que não podia mais se permitir tamanha inconsequência. Afinal, podia ter continuado ali mesmo, na cadeira, à toa como um bêbado, à mercê da intempérie e das emissões eletromagnéticas.
O importante é que isso tudo deixou, repentinamente, de ter importância diante daquelas palavras em fonte "Arial" que manchavam de preto a parte central do display.
Sentou-se vagarosamente sem tirar os olhos da tela. Minimizou-a em seguida, como que tentando dispersar uma alucinação repentina ou um mal entendido qualquer. Mas, sem êxito, retornou o olhar para aquelas palavras.
- O café está servido, amor, venha logo!
- Já vou! - disse, automaticamente, sem pensar em sair dali naquele momento.
Enquanto ganhava tempo por ter respondido ao apelo da esposa, vasculhou a memória recente, listou mentalmente o estoque de palavras que pudessem refletir o que estava vendo. Aquilo não era, necessariamente, uma surpresa para ele. Já sabia de tudo.
Paralisado, pensava na repercussão do fato. Os descasos, os casos e acasos, as mudanças e, quem sabe, uma surpreendente aceitação.
- Já vou, já vou... - repetiu enquanto se recompunha para o café da manhã de domingo.
Sentou-se para comer meio perdido em projeções e pensamentos contraditórios. Tomou o café como um autômato e vomitou na mesa.
Quando esticou o braço e deslizou a mão sobre a cama, sentiu que estava mais fria do que de costume. Abriu os olhos, estava escuro.
Acordou cansado e as sandálias não estavam no lugar de sempre. Andou nas pontas dos pés até a escrivaninha onde brilhava enevoado o display com moldura preta e pequenas luzes verdes.
No centro de tela uma janela, um quadrado em flash, que exibia silenciosamente um quarto escuro, uma mesa posta, um casal à mesa; a fartura do breakfast e aquela frase que piscava em arial sublinhado: Follow me.

por Sérgio Araújo

sábado, 1 de agosto de 2009

Monólito

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Eu reconheço este perfume que, de tão íntimo,

Abre janelas na minha previsível singularidade.

Vagando em nuvens de palavras,

Rostos e pedaços amorfos,

Estruturas e monólitos,

A saudade indecifrável.

Teu rosto no rosto de pedra,

Minhas mãos no teu rosto de seda.

Tristeza e alegria.

Parcos ângulos obtusos

Silêncios redondos

Rodopiam na valsa confusa da memória.

Pinçar retalhos de certezas completas

Que já não valem mais

Brinquedos, são o que são.

Afasto agruras,

Deixo passar o beijo, o olhar de desejo,

A noite eterna

E o dia submerso na maciez da pele.

Falas,

Amigos,

Um futuro distante que hoje é presente

E a gente nem sente.

Deixo aberto o portal antropofágico,

A desordem,

O exatamente inverso do que sou

Para soar humano

Na natureza caótica do meu corpo

E na coerência do sonho.

 

por Sérgio Araujo

segunda-feira, 27 de julho de 2009

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Raso

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O sol tostava a minha pele. Os meus olhos, impregnados de azul, com muito esforço reconheciam o marrom que manchava a aridez do chão. Acolá, testemunhas das agruras da terra, calangos assentiam solenemente sobre a rocha agressiva.

Também vi o tempo escondido na tez ressequida das crianças, enquanto ouvia o grito desafiador do carcará que pairava solene sobre a terra inóspita e agreste.

A sede ardia. Uma cadela manca, em pele e osso passou alheia à intromissão desajeitada dos tênis empoeirados. O Raso é tão profundo na amplidão da paisagem.

O espinho não fura o couro do gibão. A cavalgada é lenta entre galhos secos. A terra de Lampião, luz, fifó. Terra de repetição, jagunço, morte na curva da cova.

Seu Rufino, ainda menino viu as retiradas e viajou as léguas do Santo, cumpriu promessa, gesso e cera pro museu das lapas.

O sol ardia no azul e amarelava o chão de pó. Continuou assim até desfazer-se em silêncio dourando tudo, silêncio profundo cortado por grilos e pios.

 

por Sérgio Araújo

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domingo, 19 de julho de 2009

A Praça

Apresentação1










Jazia ali, cinematograficamente estendido sobre os paralelepípedos da rua. Ao seu redor, uma pequena multidão de curiosos. Eram donas de casa sujas das suas rotinas diárias e incansáveis na repreensão às traquinagens dos filhos, os feirantes estabelecidos no marcado municipal e que, na correria, traziam ainda nas mãos calosas, as mercadorias
que comercializavam no exato instante em que o fato acontecera.
Para lá acorreram também os populares, cidadãos sem rostos e de história comum. Gesticulavam enquanto davam fim a um assunto banal antes de se apresentarem ao local da tragédia.
O cego cantador levantou de sua esquina predileta, esbarrou no crente Deusdeth que atirou para longe a Bíblia Sagrada como um pássaro preto alçando voo no coqueiral.
Até o mascate abandonou às pressas a sua mala da cobra e pôs-se em marcha paralela aos dois soldados rasos e um delegado que avançavam autoritários rompendo a multidão.
O Dr. Sócrates, médico respeitado mais pelo seu caráter que pelos conhecimentos da medicina, caminhava apressado segurando a velha valise de couro preto  puída e de alças redondas.
Nessa altura, garrafas de cachaça corriam de mão em mão sobre as cabeças na praça.
Sobre a marquise da padaria acotovelando-se, um bando de edis tresloucados pela quantidade de eleitores ali presentes, exortava o povo a ouvir um improviso de oito páginas que já começava a se dissolver em palavras toscas tecendo uma peça tragicômica que só a ignorância e a rudeza da vida interiorana pode revelar.
Num instante, o círculo se fecha mais e mais, a multidão aproxima-se do corpo inerte, o murmúrio aumenta. De repente o silêncio. As cores se desmancham desaguando em sépia, a cena retida numa pequena superfície retangular rotaciona para a direita flutuando sobre um fundo escuro.

por Sérgio Araújo

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Cavaleiro torto

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Um cavaleiro torto

De silhueta neogótica

Percorre o caminho, sorrateiro

Na lama putrefatalenankin

Filho da arca pulga tricha

Esbilte pilotron sanguessuga

Mimética solução humanóide

Lesa-forma vil vivente

Um cavaleiro de longa esfera

Filho da arca sila troncha

Caminha indeciso

Na prima lama dicotômica

Cata tenso, na orla empolada

Finos fios de palavraspontes

Para dizer fundante

O que nunca fora antes.

Um cavaleiro torto

Pouco

Intrépido arcanjo rococó

Arremata a vida num poema

Como laço ou como nó.

 

por Sérgio Araújo

 

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Tempo curto

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O tempo é curto

O tempo é mudo

O tempo não cabe no meu mundo.

Eu curto o tempo

Mudo num segundo

Meu mundo não cabe no tempo.

 

por Sérgio Araújo

Foto:out of time - flickr - alicepopkorn

domingo, 12 de julho de 2009

Azul

margarita azul frontal. flickr. alfaneque
Capítulo XXII
O anúncio fixado na porta de entrada da casa de V escrito em fonte Old English informava, solenemente, a chegada do casal, em lua de mel há uma semana.
Pela porta semiaberta penetrava um réstia de luz do sol que imprimia, em tons dourados, um triângulo retângulo no chão de madeira polida.
Sentada, bordando um pano qualquer para matar o tempo, V suspirava enquanto pensava na recepção: flores do campo, cheiro de jasmin, música alegre, bebida farta e borbulhante, salgados e doces, ah! muitos doces.
Iluminado, o jarro de porcelana verde refletia a luz do sol em raios frios e animados projetando na parede uma infinidade de pequenas partículas multicoloridas.
V não era bonita como a noiva. V tinha sonhos românticos como toda jovem de sua idade. Mas V não era bonita como a noiva. Era inteligente! Na verdade, era muito mais inteligente que sua irmã. Não fosse pelo "defeito", como costumavam dizer referindo-se ao fato dela não poder andar, coisa de nascença, V certamente seria a preferida do, agora, marido de sua irmã.
Em sua insignificância aparente, ela era extremamente produtiva. Além dos cuidados da casa, ela escrevia. Amante nenhum nesse mundo teria escrito cartas e poemas tão belos quanto os que V moldava com lágrimas, na matéria indiferente do papel, em suas eternas noites de insônia.
V é tão jovem!
Mesmo que os verões esbanjassem claridade e velocidade às vidas daquela casa, V era inverno! Não que deixasse a alguém perceber a sua tristeza, ela simplesmente congelava em sua solidão enquanto ria e conversava sobre os dias e as coisas. No seu exílio, criava. Escrevia sobre vales verdes e serenos, sobre montanhas cujos picos alcançavam as nuvens e as águias faziam ecoar seus gritos pelos ares, descrevia terras imaginárias, lagos tão extensos, oceanos tão profundos, pessoas tão belas e boas quanto ela.
V é tão bela!
Bordando, ia criando. Criando uma festa de casamento, um amor delicado, uma figura que escapava do seu pensamento toda vez que tentava vislumbrar um rosto, uma mão, cabelos ao vento, sol no rosto, sorriso. Via sem detalhes, como quem adivinha. Mas, mesmo assim, ela queria poder dizer que amava, que sonhava e vivia.
Não importa se eram tantos os presentes que enchiam o seu quarto de uma graça comprada aqui e ali, sem identidade, apenas coisas brilhantes, felpudas e sonoras. V queria viver para além daquele quarto e sentir-se plena nas coisas do mundo.
V é frágil!
Diluindo a triângulo e espalhando luz por todos os cantos da sala, entra o casal em plenos sorrisos e conversas. Acorrem todos, o som se espalha como a água sobre a toalha da mesa, reluzem os metais, gestos e frases, palavras e respingos
Distante daquilo tudo, lenta e silenciosamente, a mão escorrega sobre o peito e repousa suavemente sobre o pano. Fechados os olhos, V agora jaz, pequena flor sobre uma rocha bruta.
Fecho o livro e vou dormir, sereno, como uma melodia de Bossa Nova.
 
por Sérgio Araújo
foto: flickr - alfaneque

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Esquina

Van Gogh

Agora que estamos sós

Juntos, mas distantes

Como numa esquina

Sem um ponto de encontro

Vejo passar o tempo

Olho pro céu

Gotas de memórias

Molham meu rosto

E não há nada que eu possa fazer

Nem ontem

Nem hoje

Eu quero estar com você

Naquela praça

Depois da esquina

Eu não sei...

O tempo diz não

E mesmo que o desejo

Seja a bola da vez

Eu não te enconto

Depois da chuva

Com o sol no rosto

Naquela esquina.

 

por Sérgio Araújo

imagem: Van Gogh-Boulevard de Clichy

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Olhos

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Soluçou rompendo o silêncio da noite. Não há luz, a escuridão deixa suas marcas no espaço onde os olhos das vagas velas vasculham em vão o vão impuro, repleto de sonhos que ainda resistem às mãos que penetram os cabelos finos, como os córregos nas florestas de Antária.

por Sérgio Araújo

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Torturado

Com o corpo parcialmente escondido atrás do poste de madeira, espiava a rua à sua frente, nem se deu conta de que os seus algozes, nesse instante, já faziam o cerco e se aproximavam perigosamente da sua posição.

Parado! Pro chão, pro chão!

A sirene estridente da viatura preta percutiu em sua cabeça.

Capuz, pontas dos pés arrastadas nas poças d'água, porta aberta, corpo jogado no banco traseiro, motor, fumaça no escapamento, pneus cantando...

Num baque, espirrando água para todos os lados. Ei-lo sentado na cadeira de ferro, daquelas antigas que eram doadas pelas companhias de bebidas para servir às barracas de festa de largo, enferrujada e meio torta em uma das pernas.

Uma cela de 9m². Num canto um aparelho de televisão exibia Xuxa Só Para Baixinhos. A cada par de horas, em alto volume, ressoava um pagode romântico daqueles cuja banda tem mais de 12 componentes.

A situação era tão absurda que tentou suicidar-se implorando para assistir um Globo Repórter inédito sobre dieta saudável, mas seus carrascos tinham outros planos.

Na semana seguinte, desfaleceu após sessões diárias de propaganda de loja de eletro-doméstico, materiais de construção e supermercados.

Enlouquecido tentava engolir o acarajé de caixinha no intervalo entre duas doses de vodka fabricada no interior de Sergipe, numa tentativa desesperada de pôr fim àquele sofrimento terrível.

O barulho do pino de ferro arrastando no chão de pedra, a luz que escapa para dentro da cela vai revelando aos poucos, num canto, um corpo que mais parecia uma mancha, uma bolha pastosa e esverdeada.

Ao lado,  escorregando do que parecia ser o bolso de uma calça de tergal, engosmado, o cartão de crédito de uma butique de sacoleira, uma foto dele com pose de Rambo na guarita do Tiro de Guerra e uma mecha de cabelo de Margarida, a periguete que conheceu no auditório do programa do Bocão.

 

por Sérgio Araújo

quarta-feira, 1 de julho de 2009

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Sentado em frente ao monitor com os olhos fixos no centro da tela esperando algo ou alguém, absorto. Só, em sua inutilidade semanal, não percebeu a vigilância fria e panótica da Webcam que penetrava em seu corpo como um raio-X e, sondando os seus mais remotos pensamentos, impingia-lhe uma alienada exposição.

- Alô! - rompendo o silêncio - uma voz aveludada, um sussurro de fêmea etérea.

Como quem desperta de um sono profundo, foi, aos poucos, se acostumando com o ambiente nebular do display até sentir o impacto das mãos com o teclado, abaixo.

Digitou alguma coisa, sem nexo, meio parecido com o vernacula utopiensium e virou-se em plano médio americano procurando a webcam que, agora, deslizava tranquilamente num ângulo de 180º.

- Alô - repetiu a voz etérea. - Alô senhor! Favor digitar seu user name e password enquanto confirmamos o contato visual. Lembramos: esta fase do processo é muito importante para preservar o link enquanto fazemos à transliteração dos dados. Aguarde, por favor.

Atordoado, ele tentava corresponder às exigências da máquina enquanto se maldizia por não ter lido os "Termos de Uso" e a "Política de Privacidade", agora era tarde, o dedo ágil digitara as últimas letras da senha resvalando num clic instintivo para enviar.

Enquanto aguardava novas instruções minimizou a janela do Player e pôs-se a observar atentamente o caos alfanumérico que enchia a tela e contornava um pequeno campo retangular, quase um banner oco, revelando o branco excessivo do cristal líquido.

- Agora, senhor, por favor digite uma frase qualquer para que possamos iniciar o download - carinhosamente pedia aquela voz serena que, de maneira alguma podia ser uma gravação dessas que existem aos montes nas telecomunicações.

- Mas que raios de frase eu devo escrever? - pensou! Estendeu os dedos sobre o teclado e permaneceu nessa posição até que, como um relâmpago, cortando os seus pensamentos desordenados, surgiu: " o que você quer de mim?" Então, com os dedos pesados de ansiedade, digitou.

Voltou os olhos para o monitor que parecia mais Gaussian Blur do que estava antes.

- Senhor?  Agora permaneça imóvel para possibilitar uma melhor performance do scanner.

Pela primeira vez, enquanto permanecia congelado numa pose de 3x4, irritou-se com aquela situação. Afinal, o que queriam com ele? Não bastavam os updates daquela semana? Acaso não teria solucionado os problemas de instalação do novo pack? Não teria reportado aquele bug? Nada parecia estar "batendo".

- Senhor? The key, the end,  the answer!

Foi então que entendeu tudo aquilo. Claro, só podia ser o sinal que esperava. Imediatamente iniciou o upload a partir das memórias mais remotas da sua vida que agora eram transmitidas através de um raio caleidoscópico para a ávida lente da webcam que se aproximava num zoom ótico 

 

por Sérgio Araújo

sábado, 27 de junho de 2009

Silêncio

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O tempo escoou

E eu estou longe

Não te observo mais

Andando descontraida pela calçada

Ou deitada no chão

Com um olhar perdido

Imaginando utopias

Silenciosa ilha.

 

O tempo passou

E eu estou sozinho

Pensando em você

Sonhando, deitado no chão

Observando

O quadro na parede

Minha utopia.

 

Pensei num tempo

Andando com você

No caminho do mar

Na trilha das pedras

Sem tempo

E sem espaço

Descalços no fim do dia.

 

por Sérgio Araújo

Foto:www.flickr.com/photos/sergemelki/

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Súbito

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Súbito
Surge assim
Como quem rouba
Um pedaço de dia
Num instante qualquer
Rasgando fantasias
sonorizando frases
Vociferando melodias
Para mostrar-se
Claro
Como um poema de Emily Dickinson
Atravessando séculos
Num Daguerreótipo country
Com pássaros
E gotas de chuva
A tilintar
Na cobertura espessa
da minha cabeça
Assim
Súbito
por Sérgio Araújo

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Vamos acordar!

3 

Tocou o chão com os pés descalços e retirou-os imediatamente, estava fria demais aquela manhã e ainda não era junho. Com muito esforço, sonolento, endireitou-se na cama e fixou os olhos no telhado baixo e escuro para ver se já havia amanhecido. Inclinou-se um pouco para frente e ligou o rádio de três faixas que ficava sobre uma mesa improvisada com cavaletes de construção.

- Vamos acordar! - dizia a vinheta do programa numa voz meio caipira, de quem diz porque diz, seguida por uma canção sertaneja das antigas, tipo Cascatinha e Inhana.

Cambaleou até o fogão de lenha, pegou o querosene numa prateleira, restos de palha de milho e varou o lusco-fusco com a chama do fósforo, num estalo.

Lá fora os primeiros sons da passarada anunciavam o dia. Um cheiro de fogueira acesa tomou conta do ambiente. Cheiro quente que logo se fundiria com o bafo de café barato e de pão dormido esquentado sobre a chapa de ferro.

- Vamos acordar! - repetia desafiando, o locutor.

Naquela manhã, despertara com a lembrança de um sonho ou talvez fosse uma impressão, um sobressalto capaz de deixá-lo pensativo e meio triste. Não era tristeza, mas nostalgia. Era uma lembrança sem se  lembrar, um perfume que persistia e não se dissolvia na água que agora banhava o seu rosto.

- Eu sou tão jovem! - Que lembranças pesam em minha mente? Que portas deixei de abrir? - Pensou enquanto sentava-se para engolir o café com pão.

Talvez seja ela. De quem não vejo o rosto. Vejo apenas os longos cabelos, a atmosfera alegre e onírica, uma cumplicidade, ternura.

- Quero voltar ou seguir? O que procuro está no passado ou no futuro? - pensou enxugando uma lágrima.

O rádio agora transmitia as notícias do dia.

Enquanto se olhava no espelho, tentava afastar aqueles sentimentos. O sol tomou conta da pequena sala vazia. Lá fora as pessoas passavam, alguns meninos fardados iam para a escola e o pára-brisa do automóvel no lado oposto da rua refletia o sol em seus olhos a ponto de não ver mais nada.

- Acordei! - disse com voz de locutor de rádio e bateu a porta.

 

por Sérgio Araújo

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Palavrascoisas

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                                          Nada

                           Um vazio

Onde outrora havia palavras

Palavras coisas

Cantantes

Sonoras

                                                    Como uma flauta doce

                                                              Saltitante

Palavras moventes

Movediças

Palavras lisas

Cordilheiras lexicais

Transmentais

Nada

Um vazio

              Vaso

                     Um Verbo

                                    Ao acaso!

sexta-feira, 12 de junho de 2009

O velho professor

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Destacava-se suspenso nos ares como uma janela para o passado. Liberto das agruras do tempo em sua carne, o rosto impecável em óleo sobre tela, parecia alegrar-se com o olhar mais atento do visitante curioso. A seus pés, uma pesada mesa de jacarandá reluzente de óleo de peroba, suportava velhos maços de papel, um porta lápis de metal prateado e uns poucos livros encadernados à moda antiga, com letras douradas em papel escurecido.
Teve o seu tempo. Fertilizou-o com suas letras envergadas pelo peso dos sentimentos e, acolá, esvoaçantes como um bando de serenatas ao luar. Construiu versos bêbados, outros encantados e sonoros como o dedilhar das cordas de um violão numa melodia vaga e veloz.
Ele sabia e repetia para quem o pudesse ouvir que o tempo é uma agulha arteira e tece com eficácia o texto dos dias. O velho professor sorri de soslaio e acena imperceptível para os olhos incautos dos visitantes. Naquela sala, o antigo divã roça seus fios arrepiados pelo desgaste, no pé-direito que se ergue solene em grossa camada de tinta azul entrecortada pelas estantes robustas que transpiram leitura, conhecimento em forma de nuvens de palavras, que ainda circulam alterosas pelo ambiente.
Teria sido em São Petersburgo, naquele passeio, do lado direito da Nevski, olhando as belas vitrines numa tarde de verão? Ah! Sim. Com certeza! A paixão foi fulminante e nada nem ninguém poderia tirar-lhe das mãos, aquele livro. Daquele encantamento, brotaram versos e prosas que encheram páginas e mais páginas do seu caderno de capa dura.
O velho professor que agora sustenta um sorriso matizado percorreu mundos e destrancou portas; modernizou-se nos bulevares de Paris. Em seus intensos devaneios, ele percorreu os meandros dos edifícios populosos de Praga para desvendar os mistérios das Moiras.
Se pensas que o pote estava cheio a derramar palavras como a banheira de Arquimedes, estás enganado, meu caro amigo. Aquele velho didata sabia que, como as areias do Saara, o conhecimento não tem fim. Deleitava-se a recordar blowup e aquela cena; não, não era uma cena de cinema, mas uma obra de arte; uma hélice enclausurada no enquadramento em preto e branco; luz e sombra.
Vez por outra, matava a sede revisitando séculos, passeando pelos jardins da Academia e sentando-se à mesa com Sofia, a bela dama, sempre espantada diante da simplicidade mas, carinhosa, em cujo colo suspirou olhando a noite estrelada, sem respostas.
Estava tudo ali, para quem quisesse ver: as histórias, as memórias e, mais que tudo, aquele metasorriso. É isso mesmo! Um metasorriso, um sorriso em si mesmo, encharcado de orgulho intelectual que a modéstia resguardava ante a imprecisão das opiniões alheias.
Desbravador implacável, exímio conhecedor dos caminhos nas estepes; saltador de montanhas e explorador de florestas tropicais. Por onde quer que andasse a imaginação dos poetas, lá estava ele, crítico mordaz, doce agnóstico a comover-se diante da beleza.
Suspenso estará sempre, nos ares, como as nuvens a apreciar contente a gente que ali aprende e que, como ele em sua infância, sonha um dia saber as respostas escondidas nas coisas e admira aquela figura suspensa, retratada em cores sóbrias. O velho professor, que não morre nunca, pois sobrevive não apenas na memória dos aprendizes, mas nos sonhos que brotam dos poetas.


por Sérgio Araújo

terça-feira, 9 de junho de 2009

Blue and Green

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A noite caiu pesada como chumbo sobre sua cabeça. No cais, à espera de Penélope, observava a dança das luzes da cidade refletidas na água. Pensava nas desilusões que a vida lhe trouxe e como aquela mulher havia penetrado fundo no seu coração. Como era serena aquela paixão, como se assemelhava a "Blue in Green" que outro dia tivera a felicidade de ouvir no Café Solano.

O cheiro da noite, o frio da madrugada e a espera. O último cigarro ainda queimava entre seus dedos e novamente aquela melodia.

Intrigava-lhe a maneira como ela entrou na sua vida. Um táxi em plena avenida frenética numa tarde de verão. Os prédios refletiam a intensa luz do sol e do lado oposto da rua: cabelos ao vento, sorriso pleno, decote generoso, mas comportado, quase sincero.

Não tomou o táxi, correu como um louco entre os carros para acompanhá-la. Numa disputa enlouquecida e unilateral com os transeuntes que caminhavam à sua frente, apostava com um depois do outro, pontos de chagada determinados pela proximidade com ela. Era uma maneira divertida de vencer terreno e se aproximar do alvo.

Podia vê-la chegando, podia sentir o seu perfume mesmo embaralhado nos diversos cheiros da rua naquela tarde. Enquanto se aproximava, cada vez mais rápido, pensava se devia falar-lhe, contar da sua paixão imediata, das loucuras que seria capaz de fazer para lhe agradar, das noites incontáveis de amor e vinho.

Penélope caminhava como quem avança para os braços do primeiro amor. Dir-se-ia que flutuava sobre sua felicidade. Não pisava as pedras portuguesas da calçada e ele estava ali, do seu lado, calado, olhando de vez em quando para merecer um sorriso que não se apagasse quando ela, por fim, se voltasse para ele.

O néon meio apagado e avermelhado do bar se avolumava através da chuva fina e Penélope não chegava. O som estridente da rotina policial podia ser ouvido misturando-se ao trompete de surdina que vagava sonolento na bruma do cais.

- Senhor M? - perguntou-lhe o homem de chapéu à sua frente.

Não respondeu. Atirou o cigarro na poça à sua frente e acenou indicando que o seguiria. Fez todo o trajeto em silêncio: o carro veloz deslizando no asfalto molhado, o prédio branco, a sala de espera, o corpo.

Um vulto vagou perdido, quase invisível diante das luzes das vitrines vazias até perder-se na escuridão. No bar da esquina que acabara de dobrar tocava Blue in Green, onde muitas Penélopes iluminavam o ambiente como notas musicais na noite fria.

 

por Sérgio Araújo

domingo, 7 de junho de 2009

36º

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Um papel

Um recado

Um recibo rasgado

Quinze mil cruzeiros

Em outubro de 84

Um cigarro

Um cinzeiro

Populares de Cuba

(Fumar daña su salud)

Rio de Janeiro

Eu não fui pra Aruba!

Li Artaud e Baudelaire

Chutei urna no palco

Meu poema silábico

Você lê se quiser

Sua voz embargada

Na hora marcada

Você diz o que quer

Dança e protesta

Manifesta!

Lê aquela brochura

Ainda há Ditadura

Nós queremos diretas!

Mas ficou no papel

Agora rasgado

Um recibo solitário

De um sonho sonhado

Registrado

No CPF e RG

Cadê Você?

 por Sérgio Araújo

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Quem sabe um dia

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Quem sabe um dia

Eu te mostro a lua

Com sua luz metálica

Numa noite fria.

Quem sabe amanhã

A estrada é deserta

A noite é prata

A relva é vasta

E tua voz é leve

Como uma navalha

Cortando o silêncio.

Quem sabe não esqueço

Teu endereço

E a luz da lua

Nos teus cabelos.

Talvez!

Num desespero de solidão

Na escuridão

Eu possa te ver

Como na primeira vez

Naquela noite

Na imensidão prateada da lua.

 por Sérgio Araújo

segunda-feira, 1 de junho de 2009

A casa de Manuela

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Olhando do alto, ela ocupava um retângulo estreito entre duas casas maiores. Telhado de duas águas frente e fundo com muitos anos de sol e chuva, emaranhado de barandões, sacos plásticos e um kichute que só Deus sabe com foi parar ali.
A rua se alongava numa reta após uma curva leve ,cujo côncavo pertencia à vista da janela muito baixa e estreita que, quando aberta, emoldurava uma parede azul e,  no canto, à direita, a madeira torneada do braço do sofá.
Daquela casa, quase que não se podia dizer-lhe a cor. Talvez um branco levemente azulado ou um azul claro esbranquiçado com manchas cor de rosa aqui e ali, em algumas partes via-se um verde aguado denunciando as diversa pinturas por que passara através dos anos.
Chapéu–de-couro, margarida, onze horas, erva cidreira, boldo e outras tantas que se misturavam às ervas daninhas, papéis de balas e tocos de cigarros que formavam um conjunto colorido à entrada da casa, tudo isso margeando um caminho de cimento sobre a terra, rachado e enegrecido pelo tempo.
Pelas frestas, via-se o interior humilde e limpo. Do conjunto de som de duas caixas grandes com tweeters, soava forte, Me and Bob Mcgee e, de vez em quando, os sucessos do momento, mas apenas no rádio.
Na sala, um sofá coberto com uma colcha de chenile cor de abóbora, uma mesinha de madeira encostada à parede, num canto, coberta com uma toalha branca sob um vaso com flores artificiais. Na parede, um quadro com moldura ovalada  de pintura barata retratando três crianças com trajes antigos.
Um cheiro  leve de parquetina inundava o ambiente. O ar era frio, mas não úmido, refrescado pelo vento constante que, numa corrente invisível, lambia sem pudor as paredes lisas, o chão de cimento vermelho e o telhado suspenso nos caibros de madeira fina.
Manuela quase nunca estava lá. Trabalhava como professora primária num bairro distante e fazia bicos em outras atividades. Diziam que tinha uma vida obscura, para além dos muros da escola estadual. Sussurravam as fofoqueiras que Manuela  era isso e aquilo. Diziam que tinha um filho, ninguém sabe onde nem com quem. O certo ou quase certo é que o menino era criado pela mãe que morava sozinha no subúrbio.
Manuela gostava de música. Quando abria a casa e estendia os lençóis na janela, um festival dava início. As canções não tinham pátria, as línguas se misturavam como numa Babel sinfônica, quintessência do bom gosto: blues, rock, samba de Cartola, Adoniram e Batatinha; Chico Buarque, Rita Lee, Caetano, Pink Floyd , Yes, Led Zeppelin, B. B. King, Beatles, Piazola, Bessie Smith e Miles Davis.
Manuela não era bonita nem feia. Manuela era Manuela. Não gostava de ser vista nem ouvida. Dizem que era feliz à sua moda; que namorava um garoto de dezesseis para contrastar com os seus 37 e não dava bola pra ninguém.
Manuela, sua casa e sua música. Assim foram-se os anos de Manuela e dos amigos de Manuela e dos gatos malhados rondando e roçando na porta para entrar.
Certamente existe um tempo e um lugar fora dos tempos e dos lugares para onde vão as Manuelas, suas casas e suas músicas; para onde vão as as palavras iluminadas pela poesia da vida. Strawberry fields forever, Manuela!

por Sérgio Araújo

sábado, 30 de maio de 2009

Janelas

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As janelas sempre me intrigaram. Há janelas para a escuridão, janelas para uma luz intensa, janelas que permitem vislumbrar recortes do ambiente, como num quebra-cabeças.
As janelas estreitas são como ranhuras na solidão do ambiente; as janelas longas não mostram nada, são espelhos que resguardam o interior das torpezas do dia.
Há ainda as quadradas; as quebradas; as consertadas de última hora; as definitivamente sem conserto.
Mais intrigante ainda são as pessoas às janelas: uma velha solteirona e magricela,um senhor de bigodes largos e poucas esperanças, uma lâmpada amarela, lembranças, crianças.
As janelas das meretrizes,dos aprendizes… Há silêncios que dizem tudo. Discussões acaloradas, brigas, intrigas, velórios.
Um pai angustiado, um marido traído, um filho que chora num canto qualquer; um taco de pão, migalhas no chão, sangue e lágrimas.
A música não pára, taças, vultos coloridos, sorrisos, gritos agudos, um seio suado, um beijo roubado.
As janelas são cicatrizes!

por Sérgio Araújo

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Qualquer dia

 
Quando sair na chuva
Qualquer dia
Desses dias de sair
Dia de ser
Dia desses...
Eu então direi
O que ouço 
O que sei
Direi da estante
Cheia de livros
Dos ingressos antigos
Daquele bilhete de viagem
Já te falei da carta?
(que não enviei)
Do cartão da turma?
Tua foto no panfleto
Um manifesto
Meu poema de protesto
Volta e meia
Ainda saio na chuva
Quem sabe 
Te vejo de novo
Olho no olho
Escrevendo versos silábicos
Incertos
Secretos
Concretos.
por Sérgio Araújo

domingo, 24 de maio de 2009

Noturno

Uma pequena chama navegava tranquila sobre o óleo transparente da lamparina. A penteadeira, além da claridade, exibia orgulhosa um vidro de Diamente Negro, um pente de tartaruga, duas borboletas de porcelana azul e um velho almanaque do Biotônico Fontoura.
Era um pequeno quarto, com cama colada à parede branca, um colchão de palha coberto com o lençol amarelado pelo uso, um urinol e as roupas de ontem penduradas num prego atrás da porta.
- É no pé da máquina - dizia orgulhosa, referindo-se ao trabalho que sustentava o casal.
Justiça seja feita, era a melhor modista da cidade. Mas, se o fato de costurar bem lhe trazia fama e freguesia boa paga, ela andava cansada, resmungando pelos cantos e nem sentia mais vontade de frequentar a casa de Dona Miúda nos domingos à tarde para um café com bolo e recordações.
Sentia-se triste e solitária entre velhos e novos amigos. Até para ele, seu primeiro amor, não mais contava os causos da infância, as aventuras no pomar do avô e tudo o mais que fazia a alegria daquela vida tosca.
Um dia, cansada de tudo, olhou para as estrelas naquela noite sem lua como se fosse pela primeira vez e soluçou, como numa ladainha, aqueles versos de criança que fizera há muito tempo numa noite como aquela.
Sozinha, recitou bem baixinho até que, lentamente, fez-se em palavras pequeninas e frágeis como nuvens de letras que agora voavam ligeiras com suas asas leves de libélula em direção à Via Láctea.
por Sérgio Araújo

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Teu tema

Parece que foi ontem
O teu braço em minhas mãos
O relógio
E você sorri
O teu rosto
Uma rima
O teu oposto
Você ainda me vê?
Eu ainda sou o teu dilema
O teu tema
Ainda te vejo
Breve
Nas luzes coloridas
Na noite que te esconde
Num bilhete
Onde?
por Sérgio Araújo

terça-feira, 19 de maio de 2009

A estrada

A estrada era permanentemente coberta por um céu anterior. Logo que chegou por alí, avistou o vasto deserto com o seu clima ameno, levemente aquecido e acolhido por uma brisa alegre e perene.
Não desejava caminhar, apenas queria sentir o ar acariciando sua pele enquanto divisava ao longe um arbusto verde em folha, em cujos galhos calados, suspirava a ave noturna.
Não havia caminhos outros que acorressem às impávidas construções monolíticas que erguiam-se à sua frente, pois o tempo é efêmero e corre numa velocidade de mãos unidas, numa luz igual e envolvente, pactuando com a natureza onírica do lugar.
Não! Definitivamente ele não era um ator confuso dizendo as falas soltas enquanto o pano caía e o espectador mais atento dormitava sobre um colo prateado.
- Come este fruto seco em plena terra com cheiro de terra - disse-lhe o guia e continuou - seus planos foram desfeitos pois o rumo é infinito e a incerteza é o destino.
- E aquele velho calendário? - Indagou.
- O tempo é agora! Sentenciou - embora as luzes artificiais atenuem teu desencanto, esta estrada é deserta o suficiente para te prender em suas léguas sinuosas.
Foi! Devagar caminhou entre veredas. Viu alhures as crianças no terreiro, os pregoeiros a soluçar maravilhas e as mulheres nos afazeres coletivos.
Agora posso voltar - pensou.
Mas viu-se novamente imóvel, perdido em pensamentos enquanto um cão rosnava, sonolento, ao seu redor.
Virou-se, olhou em volta e sorriu.

por Sérgio Araújo

domingo, 17 de maio de 2009

Cartão postal

 
Aquele era um dos poucos museus da cidade que ainda não havia visitado. Portas abertas, casarão centenário, fachada neoclássica. Como tantos, perdido nos corredores estreitos da cidade católica, caótica e bizarra.
Era uma noite como outra qualquer, exceto pela quantidade de curiosos, cantores, atores, poetas concretos e anexos. No meio de tudo, o poeta e sua musa: uma nota perdida da sinfonia de Wagner. E a ela, diz-lhe à moda de Goethe: "Vinde, doces ilusões que tanto amei na clara manhã da minha vida"!
Um olhar irrompeu o frio néon e atingiu em cheio, por entre as mechas que teimavam em esconder seus olhos, o brilho sonoro de um sorriso fresco e simples.
As luzes vermelhas das lanternas de freios corrompiam o cristal abarrotado de Frau milch.
- O que você quer dizer quando diz que já fez de tudo e só lhe resta fazer de nada?
- Zaúm!
- Você me entende Fräulein? Venha me ver amanhã e te darei as vozes da Bahia. As vozes dos antigos poetas, dos prédios abandonados, das igrejas frias, das águas que escorrem pelas encostas e molham os meninos, descalços à beira mar.
Do púlpito, o velho poliglota fala as suas palavras. O agro vitral desdenha do flash e sobre as cabeças da assistência, reluz de viés.
Do outro lado da rua, a tua lua segue os transeuntes com agilidade e indica o itinerário: vai pela vitória...
Mais tarde, era só reler aqueles poemas antigos que diziam de tudo e de nada e, como num encanto, a doçura voltava.
Aquela era uma das poucas memórias da cidade que ainda não havia contado.
Holzstatuette mit Goldüberzug. Der König Tutanchamun
por Sérgio Araújo

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Minha mão poética

Minha mente concreta
Não desliza no papel,
Salta.
Saculeja indomável
Sobre pautas paralelas.
Minha pena discreta
Sobrevoa palavras
Já escritas
Bafejadas pelo tempo,
Desvendando ritmos e dimensões.
Minha mão poética
Tem vontade própria,
Gosta de espaços infinitos
E tinta preta.
por Sérgio Araújo

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Na porta

Parada
Na
Porta
Suporta
Ereta
Beija
O
Vento
Que
Te
Lança
Pra
Dentro
Suposta
Seja
A
Porta
Que
A
Lança
Não
Importa
Ventania
Adentra
Suplica
Que
Te
Beije
Na
Porta

por Sérgio Araújo

domingo, 10 de maio de 2009

À sombra do vento


Fala dessa história
Que gira o sol do girassol.
Diz que à sombra do vento,
Como um espelho de duas faces
Um ser é um nada,
Clandestino!
Com a cabeça na terra
E os pés no espaço.
E nos lábios,
Um sorriso descontrolado.
Dia-a-dia
À procura de um raio de sol
Numa esquina,
Num disco de rock
Ou num livro de Jack London.
Conta em que janela se passa essa história,
Para que eu possa dizer-te
Que danças sobre pedras quentes
Com braços e pernas de serpente.
E a felicidade
É um pêndulo,
Pendente
Como a espada de Dâmocles.

por Sérgio Araújo




sábado, 9 de maio de 2009

Versos novos!


















Perdão pelo poema que não escrevi!
Quem sabe, seja a noite
Com suas sombras esquálidas,
Talvez seja o dia que me prende
Em seus espaços retalhados.
Perdão!
Pois navego como tantos
No mar de fragmentos,
Frases, fontes e formas.
Perdão, enfim,
Por antever que amanhã
Poderão perdoar-me
Pelo não dito
E que, apesar disto,
Nascerão livres de toda a tristeza,
Versos novos e sonoros
Salpicados de fantasia.

por Sérgio Araújo


terça-feira, 5 de maio de 2009

Decifra-me ou devoro-te!



Para quem não decifrou o poema em código ou o fez e quer conferir, eis aí o poema original.

Vê essas tardes?
Que desprezo exalam
Nestas folhas sonolentas, oscilantes;
Neste céu,
            Metálico céu.
Ouve estes sons?
Quão falsos soam.
Que terrível prisão
Nos acolhe em seu seio de pedra.
Quisera
         Voar
             Com os pássaros
E, súbto, precipitar-me ao chão
Para num sorriso
De corpo inteiro
Fundir-me à terra
                      Numa manhã de sol.

por Sérgio Araújo
           

sexta-feira, 1 de maio de 2009

O gesto!


Parou em plena avenida. À primeira vista, apenas podia distinguir três lumes que incidiam brancos. Mesmo que recortadas, essas pequenas e nervosas formas, fundiam-se num corpo ao fundo que se dissolvia, branqueado, branqueagudo sob um céu enegrecido em escuro contraste com a luminosidade pueril: como uma corexplosão no abismo, uma imagem ritmada, quase espasmocênica.
Pensou que podia voltar para casa e escrever sobre aquele gesto novo que nenhum ser humano ainda havia experimentado e que em seu íntimo sabia que existia. Precisava apenas explorar as dobradiças.
Sim! Todo corpo é único e preciso, mas diverso no “eu” que generaliza e submete a determinados signos universais.
Ah! Um gesto cerebral!
Como pode ser? Pensou enquanto gesticulava ligeiramente. Codificar, Eis a solução.
Todo esse gestual concreto pode libertar, - pensou.
Não! Não é possível fazer-se claro aos cidadãos agônicos que em vão perambulam, reticentes em suas retículas ácidas, diagramadas, cada um ocupando o seu espaço programado.
Tentou ouvir sua própria voz, mais uma vez, para saber se ainda podia falar. Olhou em volta e prosseguiu vasculhando rostos, perfis, silhuetas, diodos e dióxidos.
Disse? Não!
Lentamente, como quem é conduzido pela falta de luz, escorregou como um relógio de Dali entre a multidão ácrata e continuou até dissolver-se completamente num ponto.
Codificado, mensurável, agora estava livre para continuar imune aos apelos de um sentimento humano. “Demasiadamente humano”.

por Sérgio Araújo